quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Coloque as mãos em mim II



Dona Lagartixa II - Aquela que é fria, agora, mas continua descendo e subindo pelas paredes...se alimenta de pequenos seres, mas sente uma grande fome.

Querido eu preciso te dizer tudo, dizer mais que tudo, dizer o indizível, que tu ouças o inaudível, que minha alma saia pela minha boca e encontre a tua pelos teus ouvidos.
Sim estive com muitos homens, se me perguntasses por que eu não sabia dizer, isso antes, mas agora tento me entender.

Era sempre a noite, escura e densa, vielas, becos, veredas... minhas veredas, eu vestida de negro, nos lábios um batom vermelho, o salto sempre muito alto para dar impulso ao pulo no abismo... cabelos ao vento, selvagem, as mãos a procura de quem tocar, o prazer se principiava em baforadas de cigarro, bebida era sempre cachaça, sem limão, açúcar ou gelo, rasgando minha garganta, pondo fogo em minhas entranhas.
Eles apareciam aos montes, trocava olhares e risadas fugazes...ria de que meu Deus? Ria de mim? Deles? De nós! Tudo ia se acabando entres nós enquanto com eles o jogo se iniciava. Um jogo, uma brincadeira, não tinha nenhum propósito a não ser viver o momento, o que ele tinha de terrível, amargo e por isso mesmo viciante. Gosto de sentir dor, é o prazer do pecador.
Selecionava o que parecia o pior tipo, isso dava tesão, um monstro iria me devorar e eu sua presa estava ali desejante. Sim, me mate, me mate, não, me castigue e me puna, eu me mato sempre...não é  a toa que o gozo é uma pequena morte, um salto para dentro, um mergulho no indecifrável...uma amiga me dizia que uma boa trepada vale mais que uma hora de terapia! Então, era preciso que eu me curasse. Eu sofria de algo inominável, talvez paixão...pela vida? Pela morte! Ah a pequena morte, tão forte e tão rápida, depois um nascimento, um parto. Nascia vitoriosa, mas se queria-me unificada, só me restava pedaços.
Me escute querido, não, não faça essa cara, não feches o olhos, esteja atento, pois me revelo, a ti, e  a mim.
Eles eram diferentes de ti, muito diferentes...meu desejo era avassalador, não ficava pedra sobre pedra, eu me destruía, eu me consumia...era preciso me libertar, libertar a minha fera. E eu fazia isso com eles. Ou melhor, eles faziam isso comigo.

Num motel vagabundo, eu abria os olhos, os via, que medo, era muito desejo, eu um pedaço da mais suculenta carne, ali, sangrando, um dilúvio dentro de mim, mas então eu os tocava, carne dura, tensa,bruta e sentia eles entrando em mim, e gritava, e eles se assustavam e eu dizia “ mais fundo e mais rápido... Galope em mim seu cavalo indomável!” Mas não era cavalo, era touro, minotauro...eles terminavam, desfaleciam, e eu acordava, calma.
Pergunta se eu gostava? Adorava! Se eu gozara? Nunca!

Mas em casa eu chegava, nem tomava banho, vinha no taxi cheia de suor dos bravos trabalhadores e encontrava você dormindo...dormindo não, fingindo que dormia, e eu sabia que você fingia...então eu ia ao banho, pegava a esponja mais áspera e castigava a minha pele, não tinha nojo nem nada de tudo que ocorrera, era uma realidade, tu meu delírio, o sonho, o céu e para entrar no paraíso eu precisava de uma nova alma. Mas minha carne era louca, enquanto me lavava exaustivamente, via me subindo um desejo ardente de ti, e eu me tocava lenta e profundamente, começava meu ritual de aromas, xampus, sabonetes, hidratantes, perfume e uma camisola nova, ia a teu encontro e você fingia que dormia. Quantas vezes não pensei em te acordar e dizer” me bata na cara meu Deus”? Mas você era tão divino que chegava  ser covarde, só me perdoava, chegava mais perto de mim, sentia meu calor e me abraçava e eu sentia minhas costas molhadas por suas lágrimas.

Ah como lembro da primeira vez que estivemos intimamente ligados, corpo, alma, mente, tudo... sublime, o impossível de existir acontecendo...era demais para mim, santo demais...eu preciso morrer um pouco e tu só me fazias viver o impossível de ser vivido, era uma plenitude que chegava  a ser insuportável.
Acredito que todo mundo precisa ter na sua alma, uma sombra, uma lacuna e muitas vezes se sentir completamente despossuído de tudo, um vácuo...mas contigo eu era mais, eu era total, não sobrava espaço para minhas dúvidas e minhas angustias, não sobrava espaço para ser eu como me conheço, eu era alguém que era meio você, calmo demais, tranqüilo demais, feliz demais até...ah e como eu gozava, gozava demais, tanto que me perdia, eu sou a pessoa infeliz, seca e amarga e  a procura de algo que me adoçasse a vida e, mas contigo eu era doce, feliz, úmida, não tinha mais o que procurar...será que consigo me fazer entender?
Ouça querido, você me faz parar de desejar, porque em ti encontro tudo, um amigo, um amante...um companheiro? Não. Um anulador de mim.

Mas então você se tornou tão frio, tão distante... e eu parei de sair, parei com os caras, as noites, a cachaça, o negro e o vermelho...passei até usar rosa, azul, verde água...ia empalidecendo a vida  e fui precisando de ti, mas você mesmo ao meu lado, havia partido.

Ouvindo: Cala a boca, Bárbara – Chico Buarque

Dona Lagartixa é a extesão da Dona Aranha, o que acontece quando Dona Aranha encontra alguém. Sugestão, leiam Dona Aranha e Coloque as mãos em mim. Ambos neste blog.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

She lost control


Ella tomou um longo banho quente, saiu dele e passou momentos se massageando com um hidratante gostoso de baunilha. Se vestiu de forma provocante, meias 7/8 pretas, uma lingerie preta e de renda, pôs uma peruca vermelha, se maquiou com sombras escuras, batom vermelho, se vestiu com um vestido vinho colado e curtinho e calçou sapatos de salto alto e agulha e se colocou em frente ao espelho, programou o som para repetir a música Dinorah Dinorah na voz de Elis que ela tanto gostava. Pegou uma garrafa de vinho seco e tinto e se serviu, bebeu e gostou. Começou a dançar lentamente se olhando profundamente nos olhos. Se exitava em si ver. Ia tirando as peças de roupa uma por uma, dançando, se encantando...se tocando.  No reflexo uma mulher poderosa e ela dizia para ela, “Gostosa”.

“E nos espelhos ela se despe, dança nos olhos uma chacrete... mas o verdadeiro fato está dentro do quarto...” Se abraçou, deitou na cama e suas mãos macias e quentes a tocavam intimamente, ela não precisava de ninguém para lhe dar prazer, ela sabia onde este vivia e profundamente e calma se amou.


She lost control


Ella fumava seu cigarro, seu companheiro das horas paradas e as lembranças vinham como eu nevoeiro a obscurantizar sua leve presença. Não entendia o porquê do sofrimento que passara a alguns anos. Ela estava certa de não servia como aprendizado. Foram anos perdidos, por mais que agora ela vivesse unida com a vida, deixando-se sentir inundada de paixões e desejos e também medo e insegurança sabia que os anos de sombras foram nada mais que a morte na vida. Renascer foi preciso, mas não bastava e ela chorava o passado. Não com pena de si-mesma, mas reconhecendo o sofrimento vivido. E o passado se foi numa chuva fina a sair dos olhos.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

She lost control - Again



Ella estava com sono, sem vontade de viver, esperando que o Sol nascesse, era uma longa madrugada mesmo sendo dia. Mas não conseguia adormecer, estava ligada em pensamentos que iam e vinham intrusos e companheiros. Pôs-se a pensar nas horas em que estivera com Luísa. Como era suave o seu toque, acolhedor e quente. Mas em sua alma sentia frio, e Lu estava tão longe. Ella estava longe de si também. Não sabia se estar com Lu era estar longe de si ou se o exílio era estar sem ela. Ella imergia em Luísa e desencontrando se encontrava. Era como dizia o poeta, se perder e se achar. No outro, ela mesma.
Tomava um martine e lembrava da noite em que na banheira tomando um martine com Lu ouvi aos maiores confissões de amor, não sobre si, mas sobre um homem, este Outro outro. Ella estava apática naquele noite mas ouvira acordada sobre o corpo-vulcão, este que expeli uma lava quente, vibrante e porque não uma vida destruidora? O gozo era uma terapia ou mais que isso uma junção de almas para além dos corpos, pensava também que o gozo era uma expressão máxima da individualidade compartilhada. Pensava muito sobre o gozo exatamente porque não gozara e fazer filosofia do não vivido era mais interessante que vivê-lo. Seu nome era tédio dentro desta tarde sem sol, dentro da noite interior.

Ouvindo: E se puder sem medos – Oswaldo Montenegro

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A vida é doce IX

Esperei tranquilo o dia, não fiquei a me perguntar o que tinha ocorrido, estava bem pois acreditava que Maria iria a meu encontro, mas chegando em casa após o trabalho fiquei a contar os minutos a espera dela, eu precisava vê-la.
As 20 horas ela chegou, a vi e sorri. Usava um vestido longo num tom escuro que lhe desenhava levemente a silhueta. O cabelo estava num corte muito bonito, curtinho que a deixava com um ar moderno e ao mesmo tempo a deixava com um semblante de mulher adulta, sem o cabelo longo e levemente cacheado que trazia um ar muito juvenil. Desta vez não usava lentes e o óculos lhe dava um ar um tanto sério, quando a vi assim pensei logo numa jornalista. Mas então ela sorriu e me abraços e me encantei.

Ofereci uma bebida, ela disse que queria apenas água, queria ficar sóbria embora o que ela vinha dizer pedia um vinho para relaxar.

Então a levei para sala, ela sentou em frente a mim, olhou em meus olhos, ficamos assim por uns instantes, ela estava tensa e seu olhar me trouxe medo, mas então ela dá uma gargalhada.

Eu: Que foi Maria? 
Maria: Uns pensamentos.
Eu: O que passa nessa sua cabecinha?
Maria: Por um momento relembrei a nossa ultima noite, e depois me envergonhei e ri.
Eu: Não teria porque ter vergonha.
Maria: Realmente não, mas tudo que senti sim.
Eu: O que sentiu?
Maria: Senti tantas coisas que falar sobre elas é confessar.
Eu: Não há pecado.
Maria: Mas é segredo.
Eu: Então não poderei saber?
Maria: Sentes curiosidade?
Eu: Mas que isso. Quero estar com você em corpo e espirito.
Maria gargalha novamente.
Eu: que foi Maria?
Maria: corpo e espirito, parece coisa de romance. Não estamos aqui para isso.
Eu: eu estou para te ouvir.
Maria: E eu quero falar.
Eu: Então, o que falta?
Maria respira fundo e diz: Coragem.
Eu: Não tenha medo, está na frente de um amigo.
Maria: Tem coisas que eu não quero dizer nem para mim.
eu: então não digas nada.
Levantei-me, fui em sua direção e lhe toquei o rosto, dei um abraço e beijei-lhe levemente a face.
Maria me abraçou mais forte e nos meus ouvidos disse. Estou enlouquecendo...
Eu: eu te perturbo?
Maria: Não, você é minha cura.
Maria me beijou ardentemente, me abraçou forte e ficamos algum tempo assim ao que ela diz: dança comigo?

Eu: Que música quer ouvir?
Ela: sua respiração,
Ficamos com os corpos colados e ela me acariciando, dançamos, ela levantou minha blusa, eu retirei o vestido dela e ficamos nus abraçados, ao que senti meu pênis endurecer, ela acariciou e bom o que se segue foi um sexo calmo e cheio de ternura.

Enquanto estávamos abraçados deitados ela falou que queria um vinho, fui buscá-lo e quando cheguei ela fumava um cigarro nua sentada em uma poltrona em frente a cama. Pediu que eu sentasse na cama e fechasse os olhos, assim fiz, ao que ela falou:

-Eu preciso te dizer o que eu não sei, o que tento entender e só vejo fragmentos e apesar disso eu me sinto total, e mesmo assim me sinto metade. Sinto tudo e não sinto nada, é uma outra realidade, ou outra fantasia....Quando eu estava contigo naquela noite, algo mudou em mim.... Não que eu nunca tivesse feito sexo mas, talvez eu nunca tivesse desejado tanto fazer alguém como quis fazer com você. Era como se eu esperasse a muito tempo pelo momento e a satisfação deste desejo foi tão grande, além do imaginado...coisas urgiram, sentimentos...eu não consigo entender...e entendo tudo...preciso respirar, para tentar entender.... (nisso bebeu um pouco mais de vinho)...passei por um susto, primeiro juntos eu estava em transe, era um outro momento, mas eu precisava partir, porque de repente me deu uma urgência de te ter, novamente e sempre que eu precisava partir, eu não posso me envolver... Você me faz me estranha em mim mesma e ao mesmo tempo uma revelação...me sinto bem ao teu lado e eu não me sinto bem perto de ninguém, sempre me sinto estrangeira e tento me fazer de familiar e sorrir, mas contigo eu sorrio com a boca e o espirito, com o corpo e até mesmo com minha vagina...é isso contigo eu sorrio de forma plena...preciso entender, preciso parar e parei, parei por uma semana, parei contudo, me deixei mergulhar em mim para tentar me encontrar dentro de um mar de sensações, sentimentos, acontecimentos, uma mar de prazer e medo. Eu não podia de ver, porque eu me perdi, e foi tão rápido, Contigo eu não jogo, com os meninos eu jogo, mas contigo eu sou eu e me mostro eu e como posso fazer isso? Nem no espelho eu me revelo. Mas na tua frente pouco importa quem eu sou...quem eu penso que sou, contigo eu apenas sou, sem ou com todas as fantasias, singular e plural e ao mesmo tempo que me pergunto se você vai me querer assim, eu não me importo, eu me quero assim...estar contigo é fazer as pazes comigo...não abra os olhos por favor, eu não entendo eu já transei tanto e com tantos, mas talvez seja isso, não com alguém que eu realmente desejasse, desejasse de verdade e sem nem saber porque... eu não entendo...eu entendo foi um orgasmo, sim é isso, e é mais, transar com você é como de certa forma transar com...(respiração, não fala) você me faz esquecê-lo, pois reconheço o teu ser, sem as fantasias dos meus complexos, você é você e ao mesmo tempo você... você é meu herói.

Com a voz engasgada, saindo entre lágrimas ela repetiu: Você é meu herói não entende? Meu herói.
Quando ela falou isso, eu levei um susto e entendi o que ela quis dizer com herói. Fiquei perplexo, queria abrir os olhos mas não queria vê-la.

Eu: Maria, você poderia sair um minuto, queria ficar um pouco só. Mas não quero que você vá embora, me dá um minuto por favor.

Ouvi a porta do banheiro bater e minutos depois o chuveiro. Respirei fundo. Não sabia o que dizer a ela. Realmente era uma confissão, mas não sou padre nem analista e muito menos serei um policial.

O que devo dizer a Maria? Nem sei o que eu devo pensar. E o que estou sentindo então? Nada além de susto.

Imagem : Pintura de Modigliani
Ouvindo: Marina Lima - Ainda é cedo



quinta-feira, 28 de julho de 2011

A vida doce – Parte VIII


Maria estava deitada ao meu lado, repousando sua cabeça em meu peito.
Ela me acariciava e mostrava tranquilidade. Eu estava cansado e ao mesmo tempo em êxtase. Era uma mistura de trabalho cumprido, de desejo satisfeito, e mais que isso, algo que eu não sabia identificar.

Ficamos deitados por algum tempo. Depois ela se levantou, nua, linda, sentou na poltrona em frente a cama e me olhou, seus olhos estavam serenos.
Então eu olhei para ela e falei:
E então como foi? Legal?
Ela sorriu
E eu disse
Como eu gosto de te ver assim...feliz.
Ela sorriu novamente e disse:
Tenho sede.

Perguntei o que ela queria beber, ela disse café forte e amargo. Fui fazer e quando voltei ela estava saindo do banho, se vestiu rápido e disse que já havia chamado um táxi que iria para casa. Tentei conversar algo, e ela muda, ela estava distante e fria, o táxi chegou e ela foi embora, assim sem dizer nada.
Quando chego ao quarto, havia um bilhete em baixo do travesseiro escrito obrigada, não me procure.

Uma semana se passou e eu estava sem saber o que pensar, sentia uma mistura de desalento e expectativa, queria que ela me ligasse, mas ela demorava a ligar. Fui até a casa do pai dela no fim de semana seguinte. Me convidei para um almoço, disse ao Pedro que me sentia muito sozinho que queria estar com a família dele um momento, para lembrar dos tempos que eu tinha uma família. Coloquei na face uma máscara de solidão, e até curvei um pouco a coluna para ser mais convincente, andei cabisbaixo. Mas será que era apenas uma farsa mesmo? Pedro já contrario de mim se mostrava incomodado com algo, sempre falava ao telefone com sua esposa e no trabalho se mostrava distraído. Mas disse que seria ótimo que eu fosse visitá-lo.
Não sei o que eu sentia ao certo, na minha cabeça só restavam dúvidas.. Porque Maria me deixou? Sentia que ela tinha que me deixar, mas foi tão bom, ela estava tão tranquila, porque depois ela mudou, e virou pedra? Porque se afastou, porque somente um bilhete dizendo obrigada e não me procure? Mas eu não fiz nenhum trato com ela, eu não prometi não procurá-la e não tinha porque atender a seu pedido. De certa forma me senti usado, mas ao mesmo tempo senti que cometi algum pecado.

Chegando a casa de Pedro, lá estava na sala a família reunida, mas faltava Maria. Conversei com a Júlia e com o Pedro, e até com o Otávio o aspirante a canalha. Conversa fútil e sem graça, sobre amenidades de sempre, só faltávamos falar sobre o clima. Eu já estava um tanto impaciente porque Maria não aparecia, perguntei e ele disse, que ela estava doente. Doente de que? Perguntei, gripada? Se olharam sem dizer nada, até após alguns segundos Júlia falou, alguma virose. E uma sombra surgiu naquela família. A tarde estava tediosa, logo depois do almoço eu disse ao Pedro que precisa ir, ao que ele preocupado me chamou ao escritório,
Começou a conversa dizendo que sentia que eu era mesmo um grande amigo por perceber que ele não estava bem e até se convidará a casa dele afim de ter um tempo para ouvi-lo e que precisava desabafar com alguém.
No fim de alguns rodeios ele me contou que Maria chegou tarde da noite em alguns dias e quebrou o quarto todo e cortara os cabelos. Se mostrava furiosa e gritava “eu quero um herói, um herói que me salve, eu preciso ser salva” e que entre lágrimas se batia, se agredia e gritava. Chamaram um médico amigo da família que aplicou uma injeção no qual ela dormiu dois dias e depois quando acordou ficou calada, com os olhos na janela, se recusava a comer.

Eu fiquei muito espantando e perguntei se podia vê-la, que tinha experiência nisso pois minha irmã mais nova já havia tido um desses ataques na juventude. Mentira, minha irmã mais nova é a pessoa mais equilibrada que conheço, mas o que eu poderia dizer a ele? Eu precisa mais que nunca ver Maria. Isso era urgente em mim. Ele falou que seria de grande ajuda, pois Maria não estava falando com ninguém da família. E que eles não sabiam se ligavam para alguma amiga ou não, pois Maria nunca falava de suas amigas.
Enquanto sua as escadas que davam acesso ao segundo andar da casa onde ficavam os quartos fui me enchendo de coragem e força.
Abri a porta do quarto, um quarto ainda de menina o dela, cheio de ursinhos e de detalhes rosas. Ela estava dormindo, sentei na cama e fiz carinho em seu rosto, ela acordou, me viu, sorriu e falou, “estou horrível cortei meus cabelos” e pôs as mãos na cabeça tentando arrumar os cabelos. Eu sorri e disse que ela continuava linda e continuava assim mesmo. Estava tão pálida e fraca, mas o sorriso iluminava seu semblante. Ela disse que não queria que eu a visse assim, mas que estava feliz em me ver, me deu um abraço e disse que perto de mim se sentia estranhamente confortável, que encontrava em mim alguma coisa que é era outro e ao mesmo tempo familiar. Mas pediu para que eu fosse embora, mas que iria me ver na noite de segunda-feira.
Respeitei a vontade dela, mas fiquei um pouco assustado, mas se ela disse que me procuraria eu iria esperar, era só mais um dia.

O que acontecera a Maria?

A vida é doce VII - Esboço



Maria naquele ato não era mais a Maria que eu conhecia. Não existia exatamente como antes, nem era quem eu esperava que fosse. Acontecia um nascimento, todas suas sombras foram afastadas e ela brilhou como o sol. Ao mesmo tempo todas suas máscaras foram unificadas. Ela era todas em uma só, a menina de pernas inquitas, de olhos penetrantes e convidativos, seu corpo leve como a brisa, feroz como um furacão, no ápice luminosa com um raio e após, no silêncio do descanso, triste como uma chuva fina. Ela era grande, uma mulher plena.

Esperem depois escrevo esta parte.

domingo, 24 de julho de 2011

Coloque as mãos em mim.


Dona Lagartixa: Aquela que é fria e sobe e desce pela parede assim como a aranha. A que se pergunta sobre o que é o rabo para um lagarto, se este ela pode perder e de novo irá nascer, e de novo e de novo. A única coisa que não pode perder é a cabeça, mas essa sente vazia.

Dona L diz: Quando eu era arisca, selvagem, tu me querias, agora que sou sua, mansa e domesticada, jogada a teus pés, sem saber o que fazer de mim sem ti, tu não me queres mais, sou quase irmã. Quando minhas mãos dançam pelo teu corpo, tu sentes frio, como se a carícia fosse feita por uma entidade vinda do polo norte, uma pessoa sem alma, um fenômeno que não consegues identificar, mas que definitivamente, não queres por perto.Quando a qualquer momento eu poderia partir, quando eu era louca e insaciável, que chegava da rua ainda com gozo quente de um estranho, tu me vias e chorava, me abraçava forte para que eu nunca mais saísse e eu saía e voltava e tu choravas e me querias assim porca e perdida. Mas agora deitada ao teu lado, tão pura e quase casta, me olha frio, nos sonhos ainda permanece mil outros, sem rosto, só falo, mas estou a teu lado e tu viras de lado e deita. 


Estou invisível ou se muito apareço estou em sombras na sua mente. Você precisa me ver com outro, me imaginar com outro, precisa que eu deite com outro para que me queiras. Porque só outro me querendo e que tu me queres, precisa que o calor do vizinho te contamine.



Ouvindo... Tira as mãos de mim, Chico Buarque

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Intervalo


Fumo um cigarro buscando a palavra certa
O conceito, o fim das interrogações.
Neste intervalo entre tragar o cigarro e expirar a fumaça
Que encontro,
Não a ideia, mas a mim,
Senhorita inquietação.
Existiria uma musa chamada Tabaco a soprar a resolução das minhas dúvidas?
Provavelmente morrerei de câncer de pulmão, mas pode ser de boca ou mesmo enfisema e as dúvidas ainda ressoarão para além do momento de minha existência, em toda eternidade estarão elas em outros corpos, espíritos, fumaças.
Mas então mais uma pausa e o mundo é só silêncio.

domingo, 9 de maio de 2010

Lista de fim de um domingo

Uma latinha de cerveja, alguns benzodiazepínicos, A arte de escrever de Schopenhauer, Nina Simone no fone, alguém querido que parte, um cigarro no cinzeiro e a noite começa a se aproximar de mim.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Na cama com Maria dos Prazeres ou A crise de escrever um conto

Tenho que escrever a cena de sexo entre Maria e o personagem sem nome, e não tem coisa mais difícil para mim. O risco de ficar vulgar, de não ser o que o personagem espera de Maria, de no meio do texto eu perceber que ele ou Maria poderiam brochar de tanta monotonia! Ou lirismo?

Na hora dela falar que quer fazer sexo com ele, ela é muito sutil, diz apenas que quer ver onde ele acorda, sim, onde ele “acorda” se é que me entendem. Mas na hora do sexo eu vou descrever como? “Maria me fez amanhecer.”? Ótimo para não dizer gozar! Isso tem numa música, acho que é Explode coração.

Pô ela é Maria dos PRAZERES, tem ser uma prazer berrante, mas minha descrição de Maria não tem prazer algum, isso que dá escolher primeiro o nome do personagem e só depois descrevê-lo, ela é Maria do Prazer na imaginação fértil dele, ela na verdade é apenas ninguém como todos esses que passam. Todos estes na rua, se alguém parar para lhe ouvir a vida, vai conhecer histórias fascinantes, eu mesma já fiz isso. Filei uma aula para comer cachorro quente com uma cara que nunca vi e fiquei a ver o céu e ouvir histórias e claro contar as minhas, depois tchau fui para casa, mas no final estas pessoas não deixam de ser mais um na multidão se você não lhes der atenção.

Talvez seja essa a conclusão que ele chegue, ela é alguém com uma vida, mas que esta vida não tem nada de absolutamente interessante de fato, não muda o curso da história, nem mesmo a pessoal. Em nada acrescenta a dele e que toda busca dele por ela, é nada além de uma distração, de sair um pouco do tédio das horas que passa no escritório, e já tenho um conto em que um personagem chega a essa conclusão! Ai eu me repito! Ai que confusão! Acho que estou de mau humor. risos

Protelei o quanto pude essa cena, tem a cena do motel que é praticamente sem sexo, broxante, revoltante, tanta expectativa para nada, mas é que...saiu assim Maria tinha coisas mais “importantes a dizer”, e ela vai terminar de dizer, mas é que tem ele e os pensamentos dele, ele é o protagonista afinal, então primeiro ele, segundo ele, e em ultimo a desejada Maria. Eu estou me sentindo sufocada e ao mesmo tempo instigada por esse personagem sem nome, penso nele no busu, no banho, antes de dormir, ao acordar, o que ele tem a me dizer e esqueço que Maria quer falar. Putz estou com dois cigarros acessos no cinzeiro e já ia ascender o terceiro! Ah que personagens terríveis, estão me consumindo.

Ai ai sem a cena de sexo o resto da história fica sem nexo, se a história tiver algum nexo.

Pois é, meus pensamentos são tão organizados que já escrevi as partes seguintes sem ter a cena mais desejada pelo personagem sem nome. Ah não achei nem um nome para meu personagem e no entanto é a história dele.

Fico pensando como alguém com eu se mete a escrever, seria a superação se não fosse um fracasso! E pior a frase final de todo o conto eu já tenho, sim a frase final de algo que deve ter mais de dez partes e eu estou apenas na sexta e mais algumas partes escritas a punho, termina com Maria dizendo apenas “A vida é doce”.

O que vem antes desta fala nem sei, só sei que será uma despedida, o final da história está um desgosto só.

Como minha inspiração é a música, seria claro que eu procurasse quem musicalmente me inspirou, Lobão na música Universo Paralelo nos seguintes versos: “...Alguém legal para me abandonar, enlouquecer um pouquinho talvez...parei, pensei, filosofei, há sempre uma posse atrás de quem possa, mas ela possa bem...Nada ficou com inicio, meio ou fim, o mundo parou, descontinuou, mudou”

Ela dirá sarcasticamente, cinicamente, poderosamente: “E então como foi, legal? Que bom! Como eu gosto de tiver assim feliz.” Sem esperar resposta.

Eu adoro essa ultima frase, sempre que alguém faz alguma sacanagem comigo, digo sacanagem mesmo, quando alguém me deixa revoltada, me vem essa frase na cabeça. Não acho coisa mais canalha do que alguém aprontar pro outro e perguntar depois: “Está tudo bem? E antes que você diga alguma coisa, emenda a frase com um “que bom”

Mas quem nunca se deparou com essas criaturas, cínicas do dedão do pé até o ultimo fio de cabelo?

Foge bem ao contexto da música que é o final de uma relação sexual, mas a música é um pré-texto, o texto sou eu quem crio, mesmo que eu desconstrua tudo. E as pessoas que dizem “Olá tudo bem? Sem nem quer saber se ta tudo bem, é apenas uma saudação, pô, se eu pergunto se está tudo bem é com real interesse de saber se está ou não está e o que posso fazer...mas eu também respondo sem emoção nenhuma, sim tudo bem. Hipocrisias da vida, mas o que eu estava dizendo mesmo? Hoje to bem DDA!

A mesma coisa é quando penso que a vida é doce, ou alguém me diz algo do tipo, dá vontade de mandar a pessoa tomar no rabo, não tem coisa mais louca, dolorida e até mesmo orgasmática que a vida, “se é doce mesmo eu me nego afirmar” como diria Raulzito. Pô pra mim ela tem multisabores!

Mas tem uma urgência me mim, escrever a transa de Maria para poder terminar meu texto e deixar os personagens morrerem, mas... fico a pensar, putz ele espera que Maria faça algo de outro mundo ( eu também espero, porque estou do lado do meu personagem, eu o defendo), com ela tudo deveria ser uma coisa de louco, ela é Maria dos PRAZERES ( na cabeça dele), quer saber ela depois do ato deveria se vestir, cair fora e não dizer nem um único adeus! Mas isso quem faz é outra personagem minha, hahaha, ai como me repito!

Paro, penso, que música seria a do ato fálico? Cavalgada das Valquíria me dá um certo ritmo para escrever isso, acho esta parte da ópera de Wagner muito eloqüente (seria outra palavra, mas faltando-me vocabulário, vai essa mesma, eloqüente). Ou eloqüente sou eu?

Mas aí eu volto, porra eu to falando da Maria, a que é angelical, tímida, suave...ela seria o começo da coreografia Bolero do Bejart Balé.

Pronto é isso, vou ver o vídeo... e pensar na transa alheia que tenho que escrever.

Mas não escreverei hoje, to com muito mau humor para escrever qualquer coisa “descente”.



Imagem: Kees Van Dongen

Esta não seria Maria com tédio esperando o tal ato “fálico” que ainda não escrevi?

Bolero por Bejart Balé

terça-feira, 27 de abril de 2010

A vida é doce VI

As palavras que ouvi de Amanda foram como uma punhalada pelas costas e eu esperava dela um ombro amigo, talvez momentos de prazer, alguém que pudesse me confortar, não sei ao certo. Sei que eu esperava algo amigável e não uma afronta.

Estou a pensar se realmente sou tudo o que ela disse, alguém insensível, egoísta e interesseiro, um verdadeiro cretino. E porque ela quis terminar a noite assim, amargando um doce encontro? Estava tudo tão bem, acho que é isso que penso sempre, que tudo está bem, sem nada verdadeiramente estar. Me sinto um ingênuo ou idiota que não consegue perceber as sutilizas do mal estar, nada para mim é com urgência, tudo se resolve a cada dia, mas ela desabafara como se fosse seu ultimo momento de vida antes que o nó na garganta não a deixasse mais respirar.

Acho que ela pensou que meu convite para entrar a casa dela, era como se eu pedisse para entrar em sua vida, como se eu a pedisse para voltar-mos. Deve ter relembrado na hora todos os maus momentos comigo e por isso me insultou. Ou se eu pensar de forma mais ousada, talvez ela me desejasse por perto novamente, eu sempre senti isso dela, mas ela teria que me menosprezar para que a nova realidade dela, onde ela era o ser mais importante, não fosse atrapalhada por alguém que ela chamou de sol.

Sim ela disse, eu era o centro das atenções, o sol, e não deve ser fácil para ninguém se perceber como estrela menor ofuscada, ou quem sabe mesmo, ela se sentisse uma sombra. Agora ela era dona da vida dela sem ser coadjuvante de ninguém, é talvez seja isso, ou talvez seja qualquer outra coisa. Por mais que esteja circulado de mulheres por toda minha vida, suas vontades verdadeiras sempre foram um mistério para mim.

Mas seja qual for o motivo basta saber que ela não me quer mais, porém, toda sua revolta me era desnecessária e não irei mais pensar nisso, não gosto de ressentir as minhas desgraças.
Tudo o que ela disse entenderei como um simples desabafo endereçado a um homem que não sou eu, eu não estava pintado naquele retrato das memórias dela, ela deturpara, era um simples desabafo de um mulher, nada além disso.

Iria pensar em que eu evitava pensar, em Maria e hoje era quarta e eu sei aonde encontrá-la todas as quartas as 21:00, estaria ela naquele cinema pequeno próximo a um café.

Esperei que a sessão de filme acabasse e assim eu pudesse revê-la, enquanto tomava café eu pensava no que diria, melhor não dizer nada, e meus olhos sempre atentos a qualquer movimento a porta do cinema, ah ninguém saia e já era 22:10, que aflição!

-Maria, Maria! Eu exclamava de felicidade.

Ela olhou para mim e sorriu, sentou-se a minha frente na mesinha do café e disse que havia esperado todas as semanas que eu fosse ao encontro dela, que era uma mistura de alegria e ansiedade toda vez que ela chegara ao cinema, não me via e a vida seguia seu curso, sem maiores dores, naquela sala de cinema era sempre dela os momentos de paz.

Retruquei que ela não se mostrava tão contente assim, tinha um certo pesar sobre seu rosto, se havia algum problema.

-Não, nenhum, estou assim pensativa por acusa do documentário que vi, sobre a situação das meninas de famílias muito pobres na qual suas mães a entregam para senhoras de situação financeira para que essas meninas sejam criadas como filha. Mas o que acontece é sabido por todos, em sua grande maioria se transformam em empregadas e tem sua infância roubada. E as meninas tem de 6, 7, 8 anos e devem se portar como adultas. Quando começa a ter os depoimentos dessas meninas, fiquei chocada pela inocência em acreditar que tudo aquilo estava certo, na tristeza de não poder brincar ou mesmo ir a escola, e uma por exemplo maiorizinha cuidava de um menino de 4 anos e via nele toda a alegria que lhe fora tomada, ela estava aprisionada sem ter feito crime nenhum e a alegria daquele menino lhe causava tanta raiva que tinha que pedir a Deus todas as noites que não sentisse raiva da criança só por ela ter brinquedos. Fiquei pensando em como ela começara a ter seus sentimentos mais mesquinhos despertados e que só caberia rezar para não cair na tentação de cometer uma mau ato, no mais não gosto de filmes assim. A maioria dos documentários só trata de miséria, realmente é um desagrado assisti-los.

Perguntei a Maria porque ela havia escolhido então este filme para ver, porque não escolheu outro, em outro horário.

-Esse filme não era ruim não, até me identifiquei com algumas meninas...

Como Maria poderia se identificar com alguma menina se ela era fila de um empresário e gozava de um luxo que nenhuma delas deveria ter, que era fazer qualquer coisa que lhe desejasse? Ao que ela continuou:

-Nunca sei que filme me espera, compro ingresso sem nem querer saber o nome. Este cinema faz tão boas escolhas quanto a que filmes irá passar ao público que deixo que escolha por mim. Apenas pago o ingresso e entro na sala escura, na maioria das vezes com o filme recém começado. Deixo que escolham por mim, para que escolher? Na maioria das vezes não quero escolher nada, na vida tive tão poucas chances de escolher o que faria. Na escola as professoras me diziam que livros deveria ler, assim foi do primeiro dia ao ultimo, na faculdade dizem que textos devo ler, na infância minha mãe me dizia que roupas deveria usar, as cores, os modelos e assim faz ainda hoje, qualquer escolha minha ela julga não muito bem. E todos os cursos que tive que fazer porque meus pais achavam necessários para um bom desenvolvimento? Um dia já adulta fui comprar livros, afinal isso não iria reverberar na vida de ninguém além da minha, entrei numa livraria, demorei algumas horas e comprei três livros, a alegria foi tamanha em ter autonomia sobre meus gostos. Mas chegando em casa não li até o final nenhum, meu prazer se encontrava apenas em escolher. Mas então as minhas escolhas, o primeiro livro a partir da página dez era entediante, o segundo desde o começo se mostrou um porre, e o terceiro parecia que tinha sido escrito para qualquer pessoa, menos para mim, descobri que eu não sabia escolher. Mas com as músicas é diferente, sou dona dos meus ouvidos, posso xeretar pelas lojas de disco ou pela web, descobrir novas bandas, novas músicas e composições e dentro do meu quarto ouço no meu MP4, ali sozinha com minhas escolhas. Viajo para outros mundos e todos escolhidos por mim... Ah também sou dona das minhas mãos.

Ela começa rir olhando de uma forma sedutora e me mostrando as mãos.

-Com minhas mãos eu toco violão. Em cada melodia vou a lugares tão longes. Como nos meus sonhos acordada, vou a onde quero e nem me importo em voltar. Outros mundos, a música é isso, outros mundos.

- Quer sair deste mundo, Maria? Perguntei já sabendo a resposta.

-Eu teria motivos para continuar nele? Vamos comprar uma bebida, estacionar o carro num parque, sentar em algum banco entre as árvores e ficar olhando as estrelas...seria tão bom.

-Não Maria, os parques desta cidade não são seguros, se fosse em outro lugar seu desejo seria possível.

-Então vamos a sua casa, quero saber aonde dorme, ou melhor, quero saber aonde acorda.


Ah a Maria queria saber aonde “acordo”, pois bem, seu desejo era o meu desejo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A vida é doce - V Parte


Depois daquele dia, passei a semana desatento, olhava para o Pedro e sentia raiva, no escritório toda hora lá estava ele, quando sai da minha sala, passava em frente a dele e o via, hora do café lá ele estava, na hora do almoço era com ele que eu almoçava, lá estava ele onipresente e em minha mente era Maria que não saia.


Em uma hora ou outra, lá estava os delírios de Maria, o pai herói! Comecei a por defeito em tudo que Pedro fazia, retrucava a cada minuto qualquer comentário seu. Ele era apenas um homem atarefado, como todos os homens que se importam em subir na vida, em conforto, era lógico que o trabalho lhe era muito rentável, mas que qualquer capricho paternal e isso o fazia dele o que além disso mesmo? Um homem cansado apenas, não um sujeito de grandes feitos. O grande feito dele era a filha, carente, envolvente no seu andar leve, flutuando, mas de expressão tão séria e densa, os contrastes de Maria é que me interessavam e claro, o corpo e não vejo mal nenhum nisso, se eu me interessasse pela mente seria analista e não um homem afim de uma transa com uma bela jovem.


Enquanto sonhava Pedro apareceu, me trazendo outros relatórios, minha tranqüilidade se esvaia, precisava pensar em outra coisa, além de uma noite com Maria.
Nos primeiros dias minha tentativa foi concentrar minha atenção no trabalho, essa tentativa com certeza foi um fracasso. Segunda opção passar o fim de semana na casa de meus pais no campo, iria fazer algo bem familiar, me divertiria com meu filho de 12 anos, sobrinhos e com meus irmãos um papo animado, cerveja, churrasco e truco.


Mas parece que o destino, universo ou não sei que força oculta, ia contra minhas tentativas de esquecê-la, o tempo fechou e choveu muito no segundo dia, nenhum resquício do sol, muitas nuvens negras e cada pingo d’água eram as não choradas lágrimas de Maria. O frio me fez quer ter seu corpo ao meu lado, lembrei de suas mãos suaves, e como o calor me percorria o corpo a cada toque dela, da Senhorita Tentação.
Na semana seguinte, um ato extremo, chamei minha ex-mulher para jantar, escolhi o restaurante aonde sempre íamos quando casados, um lugar aconchegante, esqueceria Maria com a mulher que um dia foi toda minha.
Eu e Amanda temos uma boa relação, não estranhei nem um pouco que ela aceitasse meu convite com certo entusiasmo, nunca havíamos brigado, nem no divórcio nem mesmo por causa da pensão polpuda de meu filho.
Estranhei que eu escolhesse no meu caderno com uma dezena de mulheres interessantes eu escolhesse logo aquela cuja um dia não quis mais ao seu lado.
Porém assim que a vi, entendi porque a escolhera para sair, ela me trazia conforto com sua voz calma, seu olhar sereno e sempre um sorriso de como é bom estar a seu lado.
No restaurante lembramos dos bons momentos, comentávamos com orgulho do desenvolvimento de nosso filho, sobre como andavam nossos amigos, nos divertíamos tanto que tentei lembrar por que motivo havíamos nos separado, não havia motivo algum.
Quando a deixei em casa, sugeri que tomássemos um café em sua casa, do jeito que falei revelei que pretendia algo mais, ao que ela me disse prontamente não. Um não em maiúsculo devida a firmeza com que falara.
Como assim não? Não estávamos tendo uma noite tão agradável, estávamos tendo um feliz reencontro, porque não poderíamos dormir juntos, fizemos isso por doze anos e há apenas dois estávamos separados e mesmo assim continuávamos amigos, ora o que tinha demais passar uma noite juntos? Utilizei todos os argumentos, principalmente que nos dávamos bem e além do mais já nem me lembrava porque tínhamos nos separado, nos sempre fomos um casal feliz.
Para que eu disse que fomos um casal feliz? Ela logo ficou chateada e começou a me lembrar do porque nos separamos.
- Você era feliz! A minha felicidade não importava, eu sempre abdicava de tudo que me interessava para atender a teus caprichos, as tuas vontades, me sentia sempre tão só. Você era cercado de amigos, toda sexta e sábado você saia com eles.
- Mas eu te chamava, sempre você estava por perto.
- Estava por perto, não contigo, eu era invisível, quando recorria a mim era a coisa de fazer pose de casal feliz ou para eu concordar com suas afirmações sobre os negócios, afinal tínhamos começado a empresa juntos. Você era a pessoa expressiva, alegre, a pessoa mais acolhedora da face da Terra, o centro das atenções e com os mais chegados sempre conselheiro e compreensivo aos problemas alheios, mas eu não existia de verdade, você fingia que me ouvia a maior parte do tempo.
- Porque não disse isso antes? Eu poderia ter mudado, melhorado, não sei, eu pensava que estava tudo bem, nem entendia direito porque nos separamos, éramos parceiros!
- Parceiros? É essa a melhor palavra para o trabalho, mas eu pensava que éramos casados! Você tinha grandes planos e precisava de ajuda para concretizá-los e nenhum aborrecimento poderia te tirar o foco do seu trabalho. Eu ficava exausta, a primeira coisa que fiz quando notei isso foi falar que queria vender a minha parte na empresa, você nem se aborreceu, compreendeu perfeitamente a minha falsa justificativa de ficar mais tempo com nosso filho pequeno, eu precisava estar o tempo todo com nosso filho para não me sentir só e você logo arrumou um sócio.
- Não entendo nada do que diz. Podia estar sempre trabalhando muito, mas sabia reservar um tempo para você e meus amigos.
- Amigo de quem? Saia com seus supostos amigos, digo pessoas com as quais convivia porque era como uma rede de negócios, quanto mais pessoas conhecia, mas contratos tinha.
- Se você pensa tão mal de mim, porque passamos 12 anos casados?
- Porque, era como ter o sol por perto, na maioria das vezes eu sentia tédio e você era tão vivo, mas o tempo passava e eu me sentia muito só, porque nem amigas de verdade eu tinha, eram apenas as esposas de seus amigos, o mundo começou a se resumir a meu filho. Até nos momentos de lazer quando restava um tempo para mim, era como se fosse agendado, como se dissesse “Estou em falta contigo, então hoje é um só dia teu”. Um dia vi que era verdade meu pressentimento, em sua agenda tinha marcado os dias comigo, até hoje me lembro do que estava escrito, “dia de Amanda, minha esposa, não esquecer, importante”, para que você tinha que lembrar que era importante estar comigo? Você anotava na agenda coisas que não podia esquecer, mas que esquecia se não fosse lembrado, entre tantas coisas estavam eu, seus pais e seu filho. Era mais uma tarefa a cumprir do que um desejo espontâneo, era um dever e claro que você cumpria, sempre foi responsável.

Ah tive que ouvir tantas coisas, só porque eu queria uma transadinha, no final de tudo não dá para ser amigo de ex-mulher, sempre existe um rancor pela relação não ter dado certo. Antes de ir embora, perguntei, porque então ela aceitou o meu convite para jantar.
-Porque tenho carinho por você, se entre tantos supostos amigos e possíveis mulheres disponíveis, você me escolheu, era porque estava com algum problema, porque desde que nos conhecemos há uns 20 anos, quando você tem algum problema e não consegue resolver embora tenha tentado de todas as formas, a ultima pessoa sou eu, seu porto seguro para as horas que se sente um fracasso.
- Eu não me sinto um fracasso, e você não foi a ultima pessoa que procurei e sim a primeira.
- Você sabia que eu estaria a sua disposição.
- E está? Que coisa mais cafajeste de se perguntar, mas perguntei assim mesmo, não era ela senhora da verdade que sabia tudo sobre mim? Não usaria máscara alguma.
-Está disponível ou não está. Perguntei grosseiramente mesmo.
- Para seus momentos de tristeza ou tensão em que precisa ficar lembrando de coisas boas, estas que eu me esforço em lembrar quais são, sim, falar do nosso filho sempre sim, mas para sexo não e foi isso que me deixou mais chateada, acho que terminaríamos a noite estando tudo bem, mas saber que tudo isso foi apenas por sexo...
- Não foi por sexo, é só uma conseqüência e não vejo nada demais em ainda sentir desejo por você, escolhi você porque você... acha que me sinto só? Eu não me sinto só, eu queria realmente te ver, ter uma noite agradável, você me faz tão bem...
- Vai para casa dormir, outro dia nós nos falamos.

Que cretina, vem jogar um monte de mentiras na minha cara tudo porque eu pedi para passarmos uma noite juntos, mulher cheia de rancor, frustrada, se estivesse bem consigo não teria me dito nada, teria me tratado bem e inventado uma desculpa, poderia ter dito que conheceu alguém, mas está tão só quanto eu e mesmo assim diz um não sonoro. Outro dia nos falamos... é o que ela pensa, outro dia é nunca mais.


Não entendo essas pessoas que passam uma vida toda fingindo que está tudo bem e depois numa hora do nada, resolvem desabafar como se não agüentasse mais o que por longos anos suportou, e é algo que já acabou, porque agora depois de um casamento terminado vem jogar para mim sua fúria como se eu tivesse sido um carrasco? Parece até que ela ia morrer ou explodir! Tem coisas que só botamos para fora na hora de receber a extrema unção ou quando nos resta um só dias de vida, ou nem isso, se morre sabendo que se viveu, agradecendo até os problemas e quem se fez sofrer, mas também se fez forte, se morre sempre em paz, se viveu o que se tinha de viver e que foi bom apesar de tudo... Assim fazem as pessoas resolvidas!


Ah e eu não estou só, eu...não estou só, tenho a Maria dos Prazeres... e não tenho, eu não tenho nem ao menos o número de seu celular. Maria no último encontro me iludiu, pensei que iria pro motel tê-la e o que tive foram as fantasias de Maria.


Enfim estou só e nada de desesperador, ninguém entende a tranqüilidade que é uma casa vazia para quem tem um dia cheio. È isso, estou completamente satisfeito de voltar só para casa e descansar minha mente, não pensar em nada, nem em Maria dos Prazeres.

A vida é doce - IV parte Temptation

Era uma tarde tediosa, a mesa cheia de papéis, contratos e mais contratos para analisar e quem sabe assinar, sim eu estava atolado de trabalho e sem nenhuma vontade de fazê-los. O ultimo cliente deixou uma proposta indecente, não teríamos quase lucro nenhum, pensei como podem querer passar a perna em um homem tão experiente? As horas passavam vagarosamente.


Eis que o telefone toca, minha secretária passa a ligação dizendo que a moça só quis se identificar como Senhorita Temptation. De quem seria a gracinha? De Prazeres é claro, a minha tentação.

Quando atendo, ela diz que gosta de uma música com este nome e pensou em mim, que estava dançando no quarto, mas queria que alguém a visse assim, feliz, que na maioria dos momentos eu a via quieta pelos cantos da casa, que hoje seria diferente.

Como ela sabia que meus olhos a acompanhavam a todo o momento e que meus ouvidos não ouviam meu amigo Pedro, mas sim, tentavam escutar o que com seu andar manhoso ela poderia me dizer?

Tantas tardes a espiar e hoje seria o momento de vê-la em sua verdadeira expressão.

Pediu que eu inventasse uma desculpa e a encontrasse em uma hora no café. Que proposta indecente, trocar meus afazeres por uma tarde de prazer!

Encontrei-a vestindo um vestido de flores claras, com um jeito leve e quase inocente. Pediu para que a levasse para uma suíte de um certo motel, que a suíte estava reservada para aquela tarde. Perguntei se conhecia muitas suítes de motel, está disse que pesquisara na internet. Então este encontro já estava agendado por ela, ela sabia o que queria e me queria naquele momento feliz, eu me sentia o sortudo, radiante. Mas como ela sabia que eu aceitaria, fugir dos meus afazeres para estar com alguém que me aborrecia?

No carro ela pediu que abrisse a janela, queria sentir o vento, o sol, natureza a comemorar por estarmos juntos. Não sei o que mudou nela, não sei se havia bebido, sou um homem cético algo se escondia, o jogo era manipulado por ela, das regras não sabia. Maria não disse nenhuma palavra mais, simplesmente ouvia seu mp3 e ria.

Tentava seguir tranqüilo, aceitar o jogo proposto. Chegamos à suíte, muito bonita, flores, romântica até, ela pediu que eu sentasse na cama, plugou o MP3, colocou a música que ouvia e começou a dançar de costas para mim, como se eu não estivesse ali, ou fosse um observador oculto, depois virou-se, olhou nos meus olhos e disse:

-Up, down, turn around, Please don't let me hit the ground, Tonight I think I'll walk alone(1).

Começou a despir-se vagarosamente, os olhos fixos nos meus.

E continuou a falar baixinho:
-Each way I turn, I know I'll always try. To break this circle that's been placed around. From time to time, I find I've lost some need. That was urgent to myself, I do believe. I do believe(2). E voltou a dançar como tudo que sentisse fosse uma brisa de tão suave, um bom momento, algo em que ela precisava acreditar

Era aquilo uma confissão? Não sei se me importava, a sua nudez era para mim muito desejada, a admirava e uma lágrima escorreu de seus olhos, agora eu já não entendia, não seria aquele dia um dia feliz?

Veio até minha direção, segurou em minha mão, tentei acariciar seu rosto, talvez um beijo, e ela virou o rosto. Apenas retirou-me a roupa e nu ela me abandonou, sem um toque sem um afago.

Me perguntei o que fazia ali, me sentia um boneco, um escravo de suas vontades e claro egoístas, não se importava comigo, mas naquele momento eu também não importava, queria saber até onde ela iria.

Virou-se e caminhou até a banheira, lá descansava calmamente, quando olhou para meus olhos, chamou-me e disse:
-Me chama apenas de Prazer, mas o prazer também esconde dor. Não seria isso o orgasmo, um explodir de não mais suportar tanta tensão?

Dor? Tensão? Tesão!

Ficamos nos olhando por um tempo, eu tentava decifrá-la, percebi que não havia alegria em seu peito, ela me encarava séria, como se algo de errado eu tinha feito, mas o que? Isso eu não podia saber, pois tudo o que ela pedia eu fazia. Quando ela disse “Por favor, não me deixe atingir o chão”. Entendi que ela me buscava como alguém em quem confiava, mas poderia contar seus segredos numa conversa, num outro lugar, num outro momento, porque ali, porque despir-se, porque eu?

Ela era fria, nenhuma poesia residia ali, nos olhos dela eu via que estava perto de ser crucificado, mas então ela abraçou-me, segurou em minha mão, levantou-me, abraçou-me e começou a balançar o corpo lentamente, fazíamos uma valsa com nossos corpos unidos e nus.
Ao que ela sussurrando em meu ouvido perguntou, mas com dentes travados:

-O que você quer?

Não respondi, não sabia o que responder além da resposta óbvia, sexo com você?

-A mim ou meu corpo? Indagava Maria.

Ela conseguia transformar qualquer momento agradável em insuportável. Ela não gostaria de minha resposta sincera.

- Quando acaba sua brincadeira? Perguntei, no que ela respondeu:
- Somente quando alguém aqui obtiver prazer.
- Não podemos sentir prazer nós dois? Eu já não sabia como desvencilhar daquela armadilha.
- O que desejo não é o que você deseja. Falou num sorriso cínico.
- E o que você deseja, Prazer?
- Importa? Maria perguntou como se já soubesse a resposta.

Não respondi, porque a resposta também seria obvia, não.
Ela riu e começou a excitar-me, entregue as suas mãos e seus lábios, eu apenas sentia, mas eis que ela ergue a cabeça e lá está os olhos furiosos, isso eu não poderia suportar.

- Importa. Eu disse. Importa porque você faz com que eu me importe. Você me obriga a me importar.

Numa mistura de doçura e cinismo, ela disse: - Você é tão bom.

Deitei na cama entregue a meu fracasso. Maria sentou ao meu lado, ficou quieta por alguns minutos, depois deitou-se, abraçou-me e ficamos quietos, o silêncio era a coisa mais reconfortante naquele momento, sentir o seu perfume retirava-me de qualquer sentimento negativo, ela ficou a alisar meu corpo e pediu que eu contasse uma história sobre uma jovem feliz, onde tudo no fim daria certo, mas sem príncipes encantados, já que não era nenhuma princesa, uma história de gente normal, cheia defeitos que tivesse um conflito. Perguntei, qual? Ela me disse a luta da mocinha contra uma mãe má.

- Não seria madrasta, Prazer?

Ela disse que qualquer não poderia ser madrasta, teria que ser a mãe e que alias é a coisa mais natural, duas mulheres não dividem o mesmo homem.

Perguntei por que a mãe deveria ser má, se era natural, não havia maldade, seria instintivo, não poderia ser o pai o vilão da história? Ela sorriu, e disse que não, o pai havia sido aprisionado pela mãe numa torre e gargalhou.

-Sim, numa torre onde as paredes são feitas de silicone, onde há bundas enormes espalhadas por todos os cantos, onde tudo é rosa brega e com tecidos de oncinhas, onde ele como escravo deve preencher um milhão de cheques por dia. Maria se divertia com a história que inventava e seu riso me alegrava.

Disse a ela que aquela história era muito fantástica. Ela retrucou que era uma história real, que conhecia uma colega que tinha uma mãe má, que aprisionava o pai num escritório e que este nunca podia ver a filha adorada, e que a mãe má, era má porque era muito bonita e para ser bonita como ela não se pode fazer mais nada além de conservar a beleza e que fazia a filha passar longas horas fazendo cursos que não gostava, para manter a filha atarefada, entendida, e longe do pai, que os únicos momentos de sossego da filha era ir a lugares frios onde a raiva se congelava.

Que imaginação fértil tinha Maria, acho que ainda não crescera mesmo que tenha atingido a maioridade. Lembrei a ela que ela me pediu para contar uma história de gente normal, ela disse que não há normais, só fazem de conta que assim são e quando uma loucura é compartilhada ela é aceita e se vive feliz para sempre, menos para os anormais que tem mais de um olho e vem o que não deveria ver.

E eu ri, novamente ela delirava, e falava isso com tanta empolgação que me trazia alegria de vê-la assim. Acariciei e juntos adormecemos, ao que passada algumas horas ela liga o som alto, começa a dançar e diz é hora de irmos embora.

Vamos embora querido, vamos felizes. Riu e completou: Mesmo que seja mentira.

A levei para o cinema como ela havia pedido, disse que precisava ficar só e ao se despedir me deu um beijo na face e um muito obrigada, fiquei do carro olhando ela andar, como ela estava leve, alegre,e feliz.

Já eu sou um sujeito de dois olhos, pés no chão e pênis, fui para casa e bati uma na homenagem dela, fiquei na memória apenas o momento em que se despia para mim dançando, ah que imagem mais adorável, ah senhorita Temptation, uma bela uma trapaceira.



Temptation – Tradução pelo site do Terra
Céu, um caminho, uma esperança
É exatamente como me sinto, não é piada
E ainda que isso me machuque, por tratá-lo assim.
Traído por minhas palavras, nunca prestei tenção. Também, é difícil dizer...


(1)Pra cima, pra baixo, girando
Por favor, não me deixe atingir o chão.
Essa noite eu pensei em caminhar só,
encontrar minha alma, ao voltar pra casa...

(2)Toda direção que tomo, eu sei sempre tento voltar
me quebrando esses círculos que estão ao meu redor
durante tempos eu achava que nunca me perderia
Isso era importante pra mim eu acreditava...

Pra cima, pra baixo, girando
Por favor, não me deixe atingir o chão.
Essa noite eu pensei em caminhar só,
encontrar minha alma, ao voltar pra casa...
Oh, você tem olhos verdes
Oh, você tem olhos azuis
Oh, você tem olhos cinzas

E eu nunca conheci ninguém como você
Não, eu nunca conheci ninguém como você
Raios dos céus atingem pessoas lá em baixo
Pessoas nesse mundo não tem para onde ir

Oh, essa é a última vez
E eu nunca conheci ninguém como você
Não, eu nunca conheci ninguém como você
http://letras.terra.com.br/new-order/28216/traducao.html

terça-feira, 13 de abril de 2010

A vida é doce - III parte



Parte III
Estávamos sentados em umas pedras, frente ao mar. Tudo estava tão escuro. O vento forte, cheiro de mar e Maria balançando as pernas, tudo isso me aborrecia. A desconcertante Maria tragava o cigarro com força, enchendo completamente os pulmões de tudo que era tóxico, bebia o vinho se amargando deliciosamente com olhos semi-cerrados, e eu ali tentando ouvir seus pensamentos, ao que ela disse:

-Gosto de homens mais velhos. Posso sentir teu cheiro?
Sem que eu dissesse nada, senti o rosto de Maria encostar no meu pescoço, senti seus lábios me tocando e em meus ombros repousou a cabeça.
-O melhor perfume que já senti foi o do meu pai. Sinto que preciso de proteção, mas não a quero, sinto que a vida é tão doce e sei que devo pedir perdão, por isso, eu sinto que todas as ondas do mar estão agora fazendo meu peito naufragar. Eu só sinto!E são tantas coisas, boas e más.

Ela de repente ficou frente a minha face, pois as mãos sobre meu joelho, olhou-me nos olhos, sorriu e voltou a beber como se o vinho ou eu lhe trouxesse alguma calmaria.

Olhei para aquele rosto tão angelical que se transformava a cada pensamento não revelado, às vezes me parecia que os mais terríveis pensamentos ali habitavam, mas ela abria os olhos, me via e sorria. Do que seria? Eu a agradava, ou eu era ali a projeção de seu pai?
- Quantos anos tem? Maria me perguntou.
- Sou sete anos mais novo que teu pai.
- Gosto dos teus cabelos grisalhos. É como se cada fio branco fosse uma experiência vivida e uma história para contar, como se cada fio branco fosse um dolorido aprendizado, algo superado, mas que lhe resta uma marca, a da vitória. Envelhecer faz bem ao homem.

Que menina, duas taças e completamente bêbada, e se eu fosse careca, que homem seria então?

-Tenho saído com dois rapazes.

O que? Como assim, a mocinha Maria estava saindo com dois rapazes? Senti em mim a surpresa seguida pelo sangue subindo a cabeça, deu vontade de esbofeteá-la e chamar de vagabunda, e fazer mais não sei o que, e eu apenas perguntei calmamente: Por quê?

Porque a vida é doce. Respondeu-me. E começou a andar pelas pedras, tive que segui-la, ameaçou entrar no mar, mas revolto como ele e eu estávamos, não podia ser, mar quase tão revolto quanto eu, corri para alcançá-la, e a tomei-a em abraços.

Ela se aprofundou em meus braços e disse:
- Gosto de homens mais velhos, fico na esperança de que seja meu pai. Saí com vários e nenhum o mesmo cheiro, nem a mão pesada, o rosto severo, o cansaço... todos apenas encantados, isso é entediante. Apenas deslumbre ao ver uma jovem a fim daquilo que aparentemente já havia de ter morrido.

Como assim de ter morrido? Por acaso alguém que passe dos 55 já é idoso? Talvez para uma mulher que acabará de sair da adolescência quem sabe.

- Então Maria porque sai com dois rapazes?
- Eles não tem a menor importância, posso não vê-los nunca mais e amanhã encontrarei outros e nenhuma lágrima será derramada, são substituíveis, descartáveis e divertidos depois de três ou quatro drinques. Com eles todas as noites são cheias de sóis, estrelas cadentes, cometas, tudo muito rápido e quase não sinto, adormeço inebriada por uma alegria furtiva.

O que a Maria queria de mim? Que eu brigasse?. Que gritasse? Batesse? Essa deveria ser a atenção esperada por ela. Ela me desagradava, seria apenas uma falsa rebelde, como todos que se rebelam por não se sentirem aceitos, que fazia tudo para chamar a atenção paterna, mas não era bem assim. Em todas as vezes que a vi em sua casa ela era retraída e dócil, nunca vi o pai dela reclamar de qualquer coisa que tenha feito, muito pelo contrário, era muito mais elogiada que o irmão mais velho, este sim um aspirante a canalha. Ela era o orgulho do pai por ser estudiosa e comprometida com seu futuro, este reclamava apenas da timidez excessiva da moça. Tímida? Quantas faces tinha Maria? E quais prazeres ela poderia me proporcionar, estar ao seu lado era arriscado, todo momento uma surpresa, mas decerto sabe ser discreta.

No que pensas? Ela me perguntou.
Respondi que em nada pensava apenas apreciava a companhia dela. Dito isto ela deu gargalhadas.
-Do que ri Maria?
-Ninguém não pensa em nada, nem aprecia a minha companhia, ou desagrado e ficam incomodados ou estão em suas próprias viagens para perceberem que eu estou presente.
-Mas eu gosto de estar ao seu lado. Respondi numa meia-verdade. Ouvi novamente outra gargalhada, que insolente.
-Você mente, sei disso porque tua face mostra outra coisa, algo como chateado. Porque não fazemos assim, falamos apenas a verdade?
Fiquei mudo, eu falava a verdade, a metade dela, mas falava. E dizer toda a verdade é desnecessário.

Ela bebeu mais uma taça de vinho, a ultima e disse:
-Você diz toda a verdade e eu sou apenas fantasia. Mas me diga, mesmo que mentindo que fantasia você faz de mim?

-Porque acha que é fantasia? Você é muito real e por isso mesmo desconcertante. Assim disse para enfrentá-la, pois a cada palavra que ela dizia se transformava em uma mulher maior, sentia que qualquer pensamento meu que tentasse encerrá-la em apenas uma Maria seria em vão, e isso dava medo.

- Desconcertante porque lhe retiro a fantasia, mas eu também não sou a que se despe. No meu rosto há várias máscaras, tiro uma e logo aparece outra e assim sucessivamente e isso não é realmente importante. Já que não falas a verdade, me permite que eu também não fale, até porque quando falo tudo, nada digo, mas não sei se minto, apenas deixo pensamentos soltos e você que se tiver interesse, usando a imaginação ou a perspicácia que chegue a algum lugar, eu não quero chegar a nenhum a não ser viver o momento.

- O momento de estar com um homem mais velho, que é amigo de seu pai? Queria saber de seu pai.
O meu pai é um herói, e isso é tudo.

Fiquei atônito com a convicção, o peito estufado e todo o orgulho com o qual ela dizia isso, um herói! E quem era o pai sonhado de Maria? Só conhecia meu leal amigo, sócio de minha empresa e um homem comum, em tudo um medíocre como todo homem comum. Herói uma ova. Já não sei por que senti este despeito quando ela disse isso, olhei a com fúria ao que ela disse:
- Vinte e três horas e meia, hora de voltar para casa, a cinderela sente sono depois de tanto vinho.
Quando ia me levantar, ela perguntou:
-Deseja ser o herói de alguém?
Eu não disse nada e a levei chateado e sem mais nenhuma palavra até sua casa.
Herói de merda, isso sim, que menina mais chata, mas então ao sair do carro ela lançou um beijo ao ar e eu fui para casa cantarolando uma valsinha.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A vida é doce

Parte II
O Acaso ou o Universo ou o que seja, conspirava a meu favor. Mas se pensar profundamente terei a dúvida, a meu favor ou contra mim? Apenas conspirava para mais um encontro.

Três dias depois encontrei Maria, a dos prazeres, a vi de longe nos corredores do shopping, eu apenas havia saído para comprar livros, mas nos corredores em que havia muitos passantes a vi, ela ria alegremente na companhia de dois rapazes. A alegria dela me contagiava e eu também sorri, sorri para o vazio, eu sozinho ali parado, contemplando seu caminhar, me lembrei do dia da carona e me confundi em sensações. Ela continuava a andar, logo mais eu não a veria e sem saber que eu estava ali compenetrado no seu andar, nas belas pernas que faziam passos sinuosos perfeitamente equilibrado em saltos finos, decidida e flutuante, pisava firme no chão, suave em minha mente. Sem esperar por nada mais, ela virou o rosto e me viu, então deu uma gargalhada abraçou os dois rapazes e a perdi na multidão.

Uma semana se passou e eu só me pensava nela, nos passos, na gargalhada, nos sentir tudo de forma tão verdadeira e nos olhos mortos, na menina monossilábica na frente do pai e na que desabafa comigo e me põe em xeque, confuso, desperto e sonhando. Os dias longe dela foram dias de muitas chuvas, fiquei a pensar com qual face eu a veria novamente, esperava a sorridente, o canto da sereia, na mulher abraçada pela solidão. E mais semanas foram se passando.

Visitei a casa de meu amigo mais vezes neste ultimo mês e só a vi poucas vezes e todas de relance, não tinha alegria, nem convite de olhos, nem risadas, apenas passagens que eu não podia acompanhar, eu tinha que tentar ter foco nas conversar com meu amigo, em problemas na nossa empresa, em soluções a encontrar, mas estar ali era apenas uma desculpa para vê-la.

Acho que sua inquietude era em encontrar um lugar onde pudesse repousar, assim que a vi melhor, senti pesada sua expressão, parecia que uma nuvem negra pairava sobre sua cabeça. Seria a minha presença que a incomodava?

Numa quarta-feira a fim de esquecê-la fui ao cinema e lá estava o frio do ar-condicionado em máxima potência, poucas pessoas, e estas certamente entretidas com o filme e eu sendo abraçado pela solidão que um dia a abraçou, eu tentava esquecê-la compartilhando o mesmo sentimento que ela sentia.

Na saída parei no café ao lado, um cappuccino para esquentar-me, eu precisava... na mesa um pouco distante da minha lá estava ela, me viu e sorriu, eu precisava!
Ele veio até mim com toda exuberância e delicadeza de uma flor que desabrochava a cada instante, o andar convicto, uma blusa rosa com um decote que lhe ressaltava o busto, a boca pintada de vermelho e sem que eu pudesse convidá-la para sentar, ela sentou, segurou em minha mão com decisão, olhou em meus olhos tão profundamente que eu esperava que me dissesse adeus, até que disse:
- Hoje não fez tão frio, vi você entrar na sala de cinema e entrei logo em seguida e o filme se desta vez era parado já não sei porque não pude me concentrar para ver, meu coração estava muito inquieto, fazia desta vez calor.

Fiquei calado, surpreso e ela sorriu.
- Poderia me levar para casa?
Eu nada respondi e ela continuou.
- O que vim fazer foi comprometido pela sua presença, mereço que pelo menos me ouça, pois o vazio que vim buscar de repetente estava cheio demais.

Sugeri que fossemos a um pub, utilizei o argumento que ainda era cedo, não era exatamente hora de levá-la para casa, a menos que ela quisesse chegar mais cedo e que não quisesse que eu prestasse toda atenção no que ela tinha a me dizer, pois dirigindo...
Ela disse que precisava do frio roubado por mim, precisava da meditação do coração estático, sugeriu que comprássemos bebidas e tomássemos em frente ao mar, hoje não choveria.
Atendi ao pedido, comprei uma garrafa de vinho branco, duas taças e fomos ver a imensidão do mar, o frio lá estava mais a lua envolvente.
Porém algo estava estranho, o sorriso saiu da face, os olhos se tornaram distantes, me pediu um cigarro e comecei a adentrar a psique de Maria dos Prazeres com tudo que ela começara a me contar num sussurro quase inaudível, as ondas faziam tanto ou mais barulho que as batidas do meu coração.

Faltando a III e IV Parte.
Imagem: Kees Van Dongen

A vida é doce


Parte I

Quando se vive muitos anos e se conhece muitas pessoas, não se vive somente a própria vida, se vive um pouco da vida de cada pessoa que nos passa e estes outros discursos adentram a alma e se tornam um discurso múltiplo de vários eus introjetados. Sou um novo homem após cada homem que conheço.


Pessoas que como eu, que passam uma imagem tranqüila, de aconchego e de bem estar com o próximo, de atenção e até carinho conseguem atrair os mais diversos tipos de humanos, principalmente os mais carentes, os que necessitam de atenção e quem sabe afago.

As muitas pessoas que conheci, essas pessoas que passaram por minha vida e digo muitas porque sou muito sociável, deixaram comigo seus segredos, medos, anseios, desejos, algumas falaram de forma escancarada e outras com sussurros e olhares fugidios.
Quando mergulhamos na vida de alguém, mergulhamos na nossa vida com maior intensidade, se faz descobertas, há uma troca sutil de papel entre aquele que se propôs cuidar e aquele que precisa de cuidados, que penso que todos nos estamos de certa forma machucados.

Algumas passaram de forma tão suave que quase não senti, outras quase me enlouqueceram com sua eloqüência, algumas me instigaram a pensar sobre a fragilidade humana e entre essas pessoas está Maria dos Prazeres, a que por tentar entende-la, tive que desconstruir minhas crenças e construir um novo mundo, novas formas de pensar e aceitar angustia de quem deseja viver de verdade ou fugir de todas elas. Cicatrizando as feridas dela, tive que cutucar as minhas e depois solitariamente anestesiar o que em mim doeu, só não sei ao certo se depois de desperto, posso voltar a dormir.

Os papéis não estão marcados, o jogo só acontece quando todos estão despertos e se propõem a continuar amanhecendo.

Maria dos Prazeres é a filha de um amigo meu e por encontrá-la sempre quieta num cantinho da sala, mas com grandes olhos convidativos a uma boa conversa me aproximei. Ou será que foi o contrário? Eu sempre conversando com o pai e ela sempre monossilábica, me deixou curioso e os meus olhos lançaram aos dela um olhar de “quero conhecer-te”?

Maria era uma moça bonita, não extremamente bonita, mas ela tinha um não sei o quê que os meus olhos alegravam-se em vê-la, sua risadas fugazes misturadas a jovialidade da face me chamavam a uma aproximação. Estava interessado em descobrir a dissonância entre a alegria descompromissada, o silêncio e as pernas inquietas e as mãos levemente tremendo.

Um dia a encontrei saindo de um café, estava só e sugeri uma carona até sua casa já que a dela era caminho para minha. Eu disse que estava tarde para uma mocinha voltar a casa sozinha, ela me respondeu que iria a casa da avó e que não tinha medo de lobos solitários, estes não seriam maus a quem sabe fazer bem e por isso aceitaria meu convite. Ah como é atrevida essa moça. Desmascarando minhas intenções mais pudicas!

Me encontrava no carro lado a lado com aquela moça de 18 anos, de frágil nada parecia ter, me sentia sim um lobo vigiado por aqueles lindos olhos negros, a respiração se tornava difícil, estava eu constrangido.

Ela vestia um vestido curto vinho, meias calças pretas e botas, sensual, fatal, mas a voz era de uma doçura que me parecia um canto de sereia.

No carro ela me falou que tinha saído a pouco do cinema e tinha visto um filme europeu e achou muito parado, mas que se identificou de alguma forma, mas no fundo não gostou. Eu já tinha visto o mesmo filme, parado como uma dúvida em que se pensa, um conflito em segredo, onde toda inquietação é interna e o parar é o momento onde se busca clareza para as próximas ações. Será que não era isso que fazia ela se identificar com o filme? Pois ela era a pessoa mais parada que eu conhecia da idade dela e não podemos nos agradar de todo com aquilo que se assemelha a nossos conflitos e não dá qualquer solução mágica. Realmente ela era muito jovem.

Ela me dizia que a coisa mais triste de todo o filme, que de modo algum era triste, era o ar-condicionado do cinema. Perguntei por que, ela disse que com a temperatura tão baixa ela sentia a solidão lhe abraçar, frio que lhe percorria a espinha. Disse também, que muitas vezes ia sozinha ao cinema e sentava exatamente onde o ar-condicionado fazia mais frio, que a solidão, o filme entediante, lhe dava uma melancolia, e isso era a melhor coisa para os dias em que o coração transbordava em paixões, sua forma de pisar no chão e esquecer-se das festas que a faziam flutuar em fantasias causadas pelo excesso de bebida, moços atraentes e som inebriante, porém seus dias preferidos eram os chuvosos. A chuva era suas lágrimas nunca derramadas, os trovões os gritos nunca dados e os raios o êxtase da libertação da angustia que sempre lhe consumia.

E então eu tão desejadamente sentado ao lado da viva Maria dos Prazeres, esta que em momentos me mostrou os olhos mortos e todo o discurso proferido um desabafo que lhe retirava a sua bela e juvenil máscara de moça de 21 anos.
Deixei Maria em casa e ela sorriu abertamente, sobre minha cabeça se fez um arco-íris.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Meu paraíso de 25 anos

Eu sou um homem de 52 anos, casado, tenho um filho de 28 anos, sou psicanalista e atendo muitos pacientes, casos realmente graves causados por desordens bioquímicas para além das questões emocionais e outros casos mais amenos mas que não deixam de ser perturbadores para quem os vivem.

São diversas as causas, o ambiente estressante, o trabalho extenuante, pais severos e traumas na infância, abusos nas relações pessoais, falta de um boa forma em lidar com frustrações e pressões e isso me demanda horas ouvindo lamurias, explicações esdrúxulas e repetições de assuntos que nunca se esgotam por mais esgotados que estejam. Dizem que falar cura e repetir então, deve ser a salvação.

Algumas vezes eu gostaria de ser o psicanalista do filme Dama do Lotação, retirar um cochilo entre os monólogos de uma paciente histérica ou mesmo cortar as unhas, mas ouço atento e digo vez ou outra um “hummm”, “simmm”, “entendo”.

São os mais diversos tipos de transtornos e desordens, a maioria quadros ansiosos outros tantos alimentares e muitas neuroses e obsessões.

Ah, a angustia de ter que escolher, ah a negação da liberdade, vamos todos culpar a Deus, o destino e claro, os mais esperto ou talvez os mais tolos, a doença, que para eles sempre incurável, todos nós precisamos de um pai, seja ele Deus ou o psicanalista de 250 reais a hora, eu acho que sou mais barato que Deus, ninguém fez nenhuma guerra por mim, nenhuma gota de sangue foi por minha causa derramada, nenhum filho sacrificado.

Freud nos meus 19 anos era um ser fantástico, hoje enfadonho e outros pensadores entraram no jogo, mas com o passar dos anos nos tornamos mais céticos e nos chamam de lúcidos e ponderados. Quando muito irritados com algo, os ponderados, sujeitos como eu, apenas falam mal do trânsito, falam algo da política e dormem de consciência limpa e seguem sua vida cinza, somos pessoas na mais feliz mediocridade. E Deus salve a normalidade.

Eu, o sujeito normal, não me farei de inocente, apenas tenho meus monstros domados, estão enjaulados com grilhões e bolas de ferros nos pés. E para todo lado eu sou visto como o homem pacato. Mas tenho meus dissabores - entre eles Dona Amélia, a mulher de verdade, que criatura exemplar, - que se não posso resolvê-los, posso amenizá-los e para isso tenho meu paraíso de 25 anos e é dela que eu vou falar.

Encontro com ela sempre que desejo, uma linda jovem, meiga, de uma doçura incrível, pouco fala, não é preciso que fale, e seria terrível para mim sair de um consultório onde 90% dos meus pacientes são mulheres e ouvir mais uma mulher falar de seus anseios, seus sonhos, suas paixões. Pior ainda se fosse uma pseudointelectual a querer debater comigo psicologia e filosofia, ah que asco tenho de mulher inteligente! Vou dizer o que para esse tipo de criatura cheia de respostas? Que elas conversem com o espelho, ora bolas! Em casa tenho uma que me lembra das contas a pagar ou nem isso, apenas me pede dinheiro e me deixa a casa arrumada, a roupa limpa, a comida feita e o filho educado, mas tem sempre a menopausa a se queixar, ou que eu estou sempre ausente, às vezes as mulheres são seres intragáveis. A moça não, ela é sublime.

Quando chego na casa dessa moça sempre tem um cheiro bom de jasmim, ela coloca músicas leves que lembram o ritmo de uma chuva fina, uma brisa suave sempre entra pela janela, todo o encanto dela me transporta a lugares calmos.

Me retira a roupa como uma gueixa, no banho há uma entrega total, ela esfrega minhas costas, faz massagens, esfrega meus cabelos que não são tantos agora, estou um pouco calvo, olho nos olhos cor de mel dela, sempre tão serena, seca-me com uma toalha tão macia e nunca diz nada, seus gestos são poesia, ah a mulher deveria ser muda. Vamos ao quarto.

Em cima da grande cama de casal macia, tem uma lanterna chinesa que suaviza a luz, as horas que cochilo abraçado a ela, minha cabeça sobre seus seios fartos deliciosamente acomodada, ela coloca o som do mar, as vezes fico só a acariciar os cabelos dela e me perco em sensações e assim passa a tarde, com a moça de 25 anos.
Mas tem dias que quero falar algo, tem dias que quero conversar banalidades, então se é com a moça, sei que ela sorrirá e ficarei em paz, mas tenho meus instintos perversos, guardo os dias de mau humor para a Dona Amélia, a criatura exemplar e assim completamos 30 anos de casado no sábado próximo.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Quando eu percebi que precisava partir

Eu percebi que eu precisava partir no dia quem comprei gérberas. Era final de tarde e eu voltara da floricultura, não me pergunte por que entrei lá, eu mesma não sei, não é meu costume comprar flores. Mas então eu comprei as seis gérberas laranjas e uma vermelha e arrumava calmamente num vaso de vidro, fiquei um bom tempo olhando aquelas flores e dei por mim que minha vida era tão cinza, de repente a sala parecia foto em preto e branco e as gérberas que eu olhava fixamente eram as únicas coisas cheias de vida, vibrantes. E comecei a pensar nos meus dias.

Acordar as seis para por teu café, tomar um banho de forma mecânica, preparar o café sem nem mesmo perceber seu aroma, fazer as torradas, cortar as frutas, espremer as laranjas, arrumar a mesa e te esperar. Dar bom dia, sentar contigo, tomar o café sem nem perceber o que eu comia, era tudo um ritual sem significados, ou tão ocultos que eu como iniciante de vida nada percebia. Antes de ir trabalhar você me dava um beijo e eu nem sentia os lábios teus. E então eu retirava a mesa, arrumava a casa preparava o almoço e assim ia seguindo o dia, colocava as roupas na maquina e as estendia, fazia o jantar e esperava, esperava, me arrumava e sorria e sei que não era você quem eu esperava, esperava algum significado para minha vida.

Você chegava as sete e eu estava com a mesa de jantar posta, recebia teu beijo, ouvia você reclamar do trânsito, esperava você sair do banho, escutava as velhas novidades do teu dia do escritório, jantávamos e enquanto você via jornal eu lavava os pratos. Bucha, água, sabão, espuma, tudo antes sujo ficava limpo, enxugava os partos e os guardava, segunda a sexta a mesma coisa, menos o sábado que era meio expediente para você e almoçávamos juntos e os domingos tinha você 24 horas em casa, mas não ao meu lado. Minha vida estava completa, tudo no lugar, menos eu.

Então no dia 26 de fevereiro eu saí à tarde para comprar pão, a fila da padaria da nossa rua estava impossível, fui até a do outro bairro e tinham aberto ao lado uma floricultura, vi algo e não dei por conta o que vi, fui até a padaria e na volta algo que eu não me lembrava de ter olhado me chamava, entrei. Olhei os lírios brancos, as rosas vermelhas, as azaléias rosa e tudo isso eu já tinha recebido de ti, menos as alegres gérberas, as comprei. Comprei seis gérberas laranjas e uma vermelha, vim para casa e arrumava calmamente num vaso de vidro, fiquei um bom tempo olhando aquelas flores e dei por mim que minha vida era tão cinza, de repente a sala parecia foto em preto e branco e as gérberas que eu olhava fixamente eram as únicas coisas cheias de vida, vibrantes.

Dei por mim que em sete dias delas nada restaria senão a morte, em sete anos de casados nada restava em mim senão a morte. Peguei a sua maquina fotográfica e tirei fotos de todos os cantos da casa e conclui que ali tinha uma história que eu já não queria mais participar, tirei fotos das gérberas e de mim e percebi que atrás dos meus olhos cansados existia vida.

Comecei a preparar o café, senti o aroma, a preparar a canja de galinha e eu sentia, o ardor da cebola, o cheiro bom do coentro, a textura da carne de frango crua, o vermelho do tomate...o vermelho! Terminei de por a mesa, tomei um banho gostoso e me senti e gozei, vesti um vestido vermelho, coloquei um batom vermelho e fui até a geladeira e vi teu vinho tinto, tomei sozinha; no quarto tudo branco, menos eu e o vinho. E mesmo com ar condicionado senti calor. Desta vez nada esperei, eu vivi o momento.

Você chegou tarde, me encontrou dormindo, me acordou e eu estava sonhando num dia sem você e confesso, sem mim também, um dia em que eu não era mais eu, era uma pessoa que chegava de uma longa viagem e pela janela do trem tinha visto belas paisagens. Disse que tinha feito hora extra, conversou um pouco e eu te ouvia, acho que pela primeira vez te ouvi, suas reclamações, os relatórios pendentes que tinha que fazer no fim de semana, os causos do escritório, mas confesso que para mim nada daquilo tinha qualquer significado, eu conseguia ver você na sua sala, os papéis sobre a mesa, os vários telefonemas que atendia, as reuniões e sempre via você entediado e aí comecei a sorrir, você me falou que eu estava tão serena e quão bom era me ter ao lado e me controlei para não rir, como você poderia dizer que eu estava a seu lado se eu nunca estive nem mesmo perto de mim?

No outro dia acordei as cinco da manhã e vi o dia nascendo e senti que eu também nascia. Tinha chovido na noite anterior e eu sentia o cheiro da chuva, resolvi sair para caminhar e vi tantas coisas e o sol parecia que me abraçava. Cheguei as seis e você dormia, fiz tudo como o de costume, porém desta vez acordada, eu sentia tudo e novamente olhei as gérberas, tomamos café e só você seguia a vida como se nada tivesse acontecido.

À tarde resolvi sair para imprimir as fotos, do dia estava tão lindo e as fotos tão cinzas. As únicas coisas que eu havia tirado fotos no modo colorido era eu e as gérberas. Nos dias seguintes tentei compartilhar com você meu despertar, mas você parecia que vivia com a cabeça em nuvens negras. Tentei lhe dizer que a vida era mais simples e feliz e você me disse que assim era para as esposas, respirei fundo e concordei contigo, pensei que assim a questão estava solucionada, aceitava o fato e pronto. Mas você começou a fazer um discurso, me falou do cansaço, dos escândalos no Planalto e a miséria do país, questionou porque eu não lia nem via jornais, lia somente Sabrinas e Julias e assistia somente comédias românticas ou então não fazia nada disso apenas arrumava a casa. Ora eu fazia muitas coisas, dona de casa não é tarefa fácil e eu não me sentia desmerecida por isso, mas sim por fazer tudo isso no modo automático, não briguei com você, briguei comigo por ter vivido como um autômato por longos 7 anos. Os desejos e suspiros nem mais na cama.

Enquanto você discursa e eu ouvia, me deu uma ânsia por beijá-lo, além da boca os pés e eu fortemente o abracei, você nada entendeu e se afastou e eu chorei e você me consolou e fizemos amor e aí tudo mais uma vez fez significado, você gozou, eu gozei, mas ambos como uma máquina, nada era verdadeiramente sentido, não tinha o frenesi de encontros antes do casamento em que eu ia para sua casa e tinha que ser tudo rápido e tinha o suspense de seus pais não nos pegassem caso chegassem em casa fora do horário que pensávamos que eles estariam fora, era intenso, louco, apaixonado, mas o que era quente após 3 anos de casamento o amor ficou morno e algumas vezes gélido.

Eu podia olhar nos olhos teus que você pensava em ti e no teu prazer e eu percebia que você não me percebia, eu pensei na minha foto do retrato que além dos olhos cansados existia vida, e por isso mesmo eu precisava chorar como um recém nascido.

Na cama você deitado sobre mim lembrei-me de trechos um texto que havia lido numa revista feminina, nem isso eu lia, mas nos consultórios de médicos sempre tem uma, era algo sobre a Anais Nin e algumas considerações dela sobre a mulher, o ato sexual, o homem ocupado que se nutre dela... Nem isso, acredito que acontecia, mas sei que eu precisava ter êxtase em minha vida.

Não pude dormir em paz, foi uma noite de insônia, meus pensamentos queriam que os ouvisse e eu muitas vezes surda as minhas emoções e sentimentos, comecei a prestar atenção e vi que eu ainda esperava. Amanheceu e eu saí para caminhar, sentei em uma banco na pracinha que tem perto de casa e passei algumas horas vendo o jardim, o céu, os passantes e eu ainda esperava.

Cheguei em casa, li teu bilhete em que se mostrava mais chateado que preocupado, era dez horas quanto terminei meu banho e te liguei avisando que chegara em casa, reclamou que não tomou seu suco de laranjas nem comeu torradas com orégano e perguntou que desatino tinha dado em mim para sair sem avisar. Então fiz as torradas, o suco de laranja e tomei sozinha e fui percebendo que era sua empregada, que não fazia nada para seu bem estar ou meu, mas porque era preciso fazer, um dever a cumprir e nada mais.

Fui até seu gabinete, entrei tantas vezes ali para varrer, jogar as cinzas do cinzeiro fora, tirar o pó e jogar os jornais velhos no lixo e resolvi pegar seus jornais e comecei a ler, perdi o horário do almoço, o horário de lavar, estender e tirar do varal e passar as roupas. Na sala lá estavam as não tão vivas gérberas, resolvi tomar um banho demorado e senti o aroma do sabonete, do xampu, do hidratante, me arrumei e fui ao salão e em vez de pintar minhas unhas de esmalte claro como sempre, pintei de vermelho vivo, e perdi o horário de fazer e por tua janta, o horário de te esperar ou esperar qualquer coisa. Eu estava num bonito bar do shopping tomando um Martini seco, lendo um livro que me parecia entediante e quanto mais lia mais eu me identifica e não esperei por mais nada quando reparei nas belíssimas fotografias, fui interrompida na minha viagem ao fundo de mim por um bilhete que o garçom me entregava e vi um senhor bonito e pensei comigo mesma: “Para que mais? Já tenho um marido!”

Voltei para casa me desculpei, atribui o meu descaso para contigo com uma dor de cabeça que eu vinha tendo há alguns dias, mas que de verdade eu sabia que não tinha e claro que você me perguntou tanto tempo para achar um anador e eu te disse que fui ao salão e encontrei amigas e sai, você riu e eu ria, tantas mentiras e elas são apenas necessárias quando não confiamos mais nas pessoas.

Falei que tinha lido jornal e você então falou se eu não estava aborrecida com tantas coisas desagradáveis que li, não sou de louça querido, isso não me quebra. Eu disse que se algo na política o incomodava que procurasse o ministério publico e que não iria ler mais jornais porque simplesmente nada daquilo importava tanto quanto a minha vida, apesar de nada do que li serem problemas insolucionáveis para os dispostos a lutar pela mudança. E você me perguntou ironicamente o que na minha vida era tão importante, eu me deitei no lado direito da cama como sempre deitava quando queira encerra um assunto e disse firmemente eu. Fui dormir me sentindo gloriosa e você riu e me lembrou do quanto eu já fui tola em nada querer saber, mas estava certa em dizer que eu era mais importante que você, que o jornal e que os insatisfeitos que resmungam e nada fazem, eu não mais seria tola, seria responsável por minha vida.

Então nos meses que se seguiram fiz curso de fotografia e como nunca se interessou não te chamei hoje para a exposição do meu trabalho. Já conversei com minha mãe que se sente só, mas cheia de energia e quer alguém para compartilhar com ela a vida, a vida simples e alegre. E depois da exposição é com ela que irei para casa, terei a casa da minha mãe como minha.

Deixo para ti todos meus livros e filmes que me retiram da vida, comprei para mim e outro para você o guia de espaços culturais e gastronômicos da cidade, quanto a ser alguém alienada nem tanto resolvi fazer como você assistir ao jornal da noite enquanto saboreio um vinho que igualmente me entorpece, mas isso só nos dias que eu não queira viver minha vida, nos dias em que eu escolherei para ficar chateada, pois aprendi que é a partir do desagradado, do conflito que buscamos soluções, mas isso não foi com você, mas com as gérberas vermelhas num mundo cinza, quero agora fotografar histórias que contem a possibilidade de mundos melhores. Quando ler esta carta verá que deixo para você ao lado dela um cravo roxo.