Na ante-sala do teatro, onde se encontra o público esperando para abrirem a as portas que dão acesso ao teatro, é onde começará o espetáculo. Entra Dona Aranha, uma mulher na casa dos 35 anos, vestida de forma provocante, sapatos de saltos agulha muitos altos, maquiagem excessiva e já desgastada para demonstrar que já se passará horas em que ela se maquiara, os cabelos ligeiramente bagunçados, ela está visivelmente cansada, ela está chegando em casa, é madrugada.
Dona Aranha (se confunde ao público cantando a música infantil Dona aranha): A dona aranha subiu pela parede, veio a chuva forte e a derrubou. (canta para si, alheia a tudo, como se não percebesse o público, canta no ritmo da música, baixinho, triste e fica mexendo em sua bolsa pequena como se procurasse algo, vai caminhando entre o público)
[...]
Dona Aranha: Ondas que me façam ir e vir dentro de mim mesma, ondas, ondas (partitura de corpo) morrendo e nascendo, indo para o nada e voltando para tudo, indo para o tudo e voltando para o nada... indo e vindo entre a sanidade e a loucura.
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Eu seria Gaia e ele o céu a chorar dentro de mim, seus humores, a alegria furiosa, volúpia. Meu útero o centro do universo, reverso. A Vagina é minha alma faminta.
(calma)Tempos depois eu nasceria gloriosa com uma armadura reluzente após uma dor de cabeça de meu pai titã, eu o superaria. Justa e sã.
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Eu seria Gaia e ele o céu a chorar dentro de mim, seus humores, a alegria furiosa, volúpia. Meu útero o centro do universo, reverso. A Vagina é minha alma faminta.
(calma)Tempos depois eu nasceria gloriosa com uma armadura reluzente após uma dor de cabeça de meu pai titã, eu o superaria. Justa e sã.
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(banalização)Ahh meu corpo já foi comido e cuspido... lugar comum. Um homem que deitou comigo antes, foi como todos os homens deitando com todas as mulheres... As comendo e as cuspindo. (tão banal que chega a ser vulgar, quando fala “cuspindo”, lembra o ato de cuspir realmente).
(desvela qualquer jeito pudico anteriormente, e diz como sem sentimentos, total banalização)
Dona Aranha: Era qualquer coisa, selvagem e sem sentido. Sem sentimentos, eu era todas em uma só, eu vestia a fantasia do desejo dele, que era de todos os homens.
(dencuncia)
Dona Aranha: Comeram meu corpo!!
Corre em círculos desesperada, apalpando o corpo para verificar se falta alguma parte, para e olha no espelho da penteadeira e se percebe.
Dona Aranha: (decepcionada)Meu corpo é tão comum, normal, igual... (murmura algo inaudível, meio triste, melancólico).
Puxa o banco da penteadeira para a boca da cena e vai para perto da platéia conversar.
Dona Aranha: Um homem que deseja meu corpo, deseja o de todas as mulheres. Um homem que deseja meu corpo, não me deseja. Onde sou eu e totalmente única, diferente, estranha, potente... é em minha alma. Meu lugar é dentro de mim, eu sou dentro de mim. Fora, eu só estou... de passagem.
[...]
(Perto de alguém da platéia, intimidando alguém a responder as suas indagações.)
Dona Aranha: Não somos o que comemos? O que lemos e o que sentimos? Ele seria eu, depois de devorada, lida e sentida, ele seria nós. E eu também seria ele. Sou eu ou sou nós? Eu sinto vocês?
(Volta ao divã, deita, suspira, para, depois enérgica.)
Dona Aranha: [...] Sou a aranha e o inseto devorado, estou grudada em minhas teias...eu acasalo comigo mesma e me mato depois do gozo. Eu me devoro e me vomito, eu me causo azia.
[...]
Dona Aranha: (cinicamente fala rindo) Mas não farei isso, nunca, jamais, porque eu também gosto de vê-los, de tocá-los, de comê-los... cuspi-los. (gargalhadas)
(pausa)
(Canta doce e melodiosamente) “ela é teimosa e desobediente”( fora do ritmo e enfática) “nunca está contente!!”. E se eles têm alma, ânima, psiquê... (vai abaixando a voz em paz e sono) Pouco importa, eu sou a Dona Aranha, aquela que ao acasalar devora.
[...]
(2007, versão 4)
Apenas trechos, texto longo para ser colocado em um blog. Claro que não acaba por aqui.