Dona Lagartixa II - Aquela que é fria, agora, mas continua descendo e subindo pelas paredes...se alimenta de pequenos seres, mas sente uma grande fome.
Querido eu preciso te dizer tudo, dizer mais que tudo, dizer o indizível, que tu ouças o inaudível, que minha alma saia pela minha boca e encontre a tua pelos teus ouvidos.
Sim estive com muitos homens, se me perguntasses por que eu não sabia dizer, isso antes, mas agora tento me entender.
Era sempre a noite, escura e densa, vielas, becos, veredas... minhas veredas, eu vestida de negro, nos lábios um batom vermelho, o salto sempre muito alto para dar impulso ao pulo no abismo... cabelos ao vento, selvagem, as mãos a procura de quem tocar, o prazer se principiava em baforadas de cigarro, bebida era sempre cachaça, sem limão, açúcar ou gelo, rasgando minha garganta, pondo fogo em minhas entranhas.
Eles apareciam aos montes, trocava olhares e risadas fugazes...ria de que meu Deus? Ria de mim? Deles? De nós! Tudo ia se acabando entres nós enquanto com eles o jogo se iniciava. Um jogo, uma brincadeira, não tinha nenhum propósito a não ser viver o momento, o que ele tinha de terrível, amargo e por isso mesmo viciante. Gosto de sentir dor, é o prazer do pecador.
Selecionava o que parecia o pior tipo, isso dava tesão, um monstro iria me devorar e eu sua presa estava ali desejante. Sim, me mate, me mate, não, me castigue e me puna, eu me mato sempre...não é a toa que o gozo é uma pequena morte, um salto para dentro, um mergulho no indecifrável...uma amiga me dizia que uma boa trepada vale mais que uma hora de terapia! Então, era preciso que eu me curasse. Eu sofria de algo inominável, talvez paixão...pela vida? Pela morte! Ah a pequena morte, tão forte e tão rápida, depois um nascimento, um parto. Nascia vitoriosa, mas se queria-me unificada, só me restava pedaços.
Me escute querido, não, não faça essa cara, não feches o olhos, esteja atento, pois me revelo, a ti, e a mim.
Eles eram diferentes de ti, muito diferentes...meu desejo era avassalador, não ficava pedra sobre pedra, eu me destruía, eu me consumia...era preciso me libertar, libertar a minha fera. E eu fazia isso com eles. Ou melhor, eles faziam isso comigo.
Num motel vagabundo, eu abria os olhos, os via, que medo, era muito desejo, eu um pedaço da mais suculenta carne, ali, sangrando, um dilúvio dentro de mim, mas então eu os tocava, carne dura, tensa,bruta e sentia eles entrando em mim, e gritava, e eles se assustavam e eu dizia “ mais fundo e mais rápido... Galope em mim seu cavalo indomável!” Mas não era cavalo, era touro, minotauro...eles terminavam, desfaleciam, e eu acordava, calma.
Pergunta se eu gostava? Adorava! Se eu gozara? Nunca!
Mas em casa eu chegava, nem tomava banho, vinha no taxi cheia de suor dos bravos trabalhadores e encontrava você dormindo...dormindo não, fingindo que dormia, e eu sabia que você fingia...então eu ia ao banho, pegava a esponja mais áspera e castigava a minha pele, não tinha nojo nem nada de tudo que ocorrera, era uma realidade, tu meu delírio, o sonho, o céu e para entrar no paraíso eu precisava de uma nova alma. Mas minha carne era louca, enquanto me lavava exaustivamente, via me subindo um desejo ardente de ti, e eu me tocava lenta e profundamente, começava meu ritual de aromas, xampus, sabonetes, hidratantes, perfume e uma camisola nova, ia a teu encontro e você fingia que dormia. Quantas vezes não pensei em te acordar e dizer” me bata na cara meu Deus”? Mas você era tão divino que chegava ser covarde, só me perdoava, chegava mais perto de mim, sentia meu calor e me abraçava e eu sentia minhas costas molhadas por suas lágrimas.
Ah como lembro da primeira vez que estivemos intimamente ligados, corpo, alma, mente, tudo... sublime, o impossível de existir acontecendo...era demais para mim, santo demais...eu preciso morrer um pouco e tu só me fazias viver o impossível de ser vivido, era uma plenitude que chegava a ser insuportável.
Acredito que todo mundo precisa ter na sua alma, uma sombra, uma lacuna e muitas vezes se sentir completamente despossuído de tudo, um vácuo...mas contigo eu era mais, eu era total, não sobrava espaço para minhas dúvidas e minhas angustias, não sobrava espaço para ser eu como me conheço, eu era alguém que era meio você, calmo demais, tranqüilo demais, feliz demais até...ah e como eu gozava, gozava demais, tanto que me perdia, eu sou a pessoa infeliz, seca e amarga e a procura de algo que me adoçasse a vida e, mas contigo eu era doce, feliz, úmida, não tinha mais o que procurar...será que consigo me fazer entender?
Ouça querido, você me faz parar de desejar, porque em ti encontro tudo, um amigo, um amante...um companheiro? Não. Um anulador de mim.
Mas então você se tornou tão frio, tão distante... e eu parei de sair, parei com os caras, as noites, a cachaça, o negro e o vermelho...passei até usar rosa, azul, verde água...ia empalidecendo a vida e fui precisando de ti, mas você mesmo ao meu lado, havia partido.
Ouvindo: Cala a boca, Bárbara – Chico Buarque
Dona Lagartixa é a extesão da Dona Aranha, o que acontece quando Dona Aranha encontra alguém. Sugestão, leiam Dona Aranha e Coloque as mãos em mim. Ambos neste blog.







