terça-feira, 27 de outubro de 2009

Alguns trechos do Monólogo Dona Aranha

Na ante-sala do teatro, onde se encontra o público esperando para abrirem a as portas que dão acesso ao teatro, é onde começará o espetáculo. Entra Dona Aranha, uma mulher na casa dos 35 anos, vestida de forma provocante, sapatos de saltos agulha muitos altos, maquiagem excessiva e já desgastada para demonstrar que já se passará horas em que ela se maquiara, os cabelos ligeiramente bagunçados, ela está visivelmente cansada, ela está chegando em casa, é madrugada.


Dona Aranha (se confunde ao público cantando a música infantil Dona aranha): A dona aranha subiu pela parede, veio a chuva forte e a derrubou. (canta para si, alheia a tudo, como se não percebesse o público, canta no ritmo da música, baixinho, triste e fica mexendo em sua bolsa pequena como se procurasse algo, vai caminhando entre o público)

[...]
Dona Aranha: Ondas que me façam ir e vir dentro de mim mesma, ondas, ondas (partitura de corpo) morrendo e nascendo, indo para o nada e voltando para tudo, indo para o tudo e voltando para o nada... indo e vindo entre a sanidade e a loucura.
[...]
Eu seria Gaia e ele o céu a chorar dentro de mim, seus humores, a alegria furiosa, volúpia. Meu útero o centro do universo, reverso. A Vagina é minha alma faminta.
(calma)Tempos depois eu nasceria gloriosa com uma armadura reluzente após uma dor de cabeça de meu pai titã, eu o superaria. Justa e sã.

[...]
(banalização)Ahh meu corpo já foi comido e cuspido... lugar comum. Um homem que deitou comigo antes, foi como todos os homens deitando com todas as mulheres... As comendo e as cuspindo. (tão banal que chega a ser vulgar, quando fala “cuspindo”, lembra o ato de cuspir realmente).

(desvela qualquer jeito pudico anteriormente, e diz como sem sentimentos, total banalização)

Dona Aranha: Era qualquer coisa, selvagem e sem sentido. Sem sentimentos, eu era todas em uma só, eu vestia a fantasia do desejo dele, que era de todos os homens.

(dencuncia)
Dona Aranha: Comeram meu corpo!!

Corre em círculos desesperada, apalpando o corpo para verificar se falta alguma parte, para e olha no espelho da penteadeira e se percebe.

Dona Aranha: (decepcionada)Meu corpo é tão comum, normal, igual... (murmura algo inaudível, meio triste, melancólico).
Puxa o banco da penteadeira para a boca da cena e vai para perto da platéia conversar.

Dona Aranha: Um homem que deseja meu corpo, deseja o de todas as mulheres. Um homem que deseja meu corpo, não me deseja. Onde sou eu e totalmente única, diferente, estranha, potente... é em minha alma. Meu lugar é dentro de mim, eu sou dentro de mim. Fora, eu só estou... de passagem.

[...]
(Perto de alguém da platéia, intimidando alguém a responder as suas indagações.)

Dona Aranha: Não somos o que comemos? O que lemos e o que sentimos? Ele seria eu, depois de devorada, lida e sentida, ele seria nós. E eu também seria ele. Sou eu ou sou nós? Eu sinto vocês?
(Volta ao divã, deita, suspira, para, depois enérgica.)

Dona Aranha: [...] Sou a aranha e o inseto devorado, estou grudada em minhas teias...eu acasalo comigo mesma e me mato depois do gozo. Eu me devoro e me vomito, eu me causo azia.
[...]

Dona Aranha: (cinicamente fala rindo) Mas não farei isso, nunca, jamais, porque eu também gosto de vê-los, de tocá-los, de comê-los... cuspi-los. (gargalhadas)
(pausa)
(Canta doce e melodiosamente) “ela é teimosa e desobediente”( fora do ritmo e enfática) “nunca está contente!!”. E se eles têm alma, ânima, psiquê... (vai abaixando a voz em paz e sono) Pouco importa, eu sou a Dona Aranha, aquela que ao acasalar devora.

[...]
(2007, versão 4)
Apenas trechos, texto longo para ser colocado em um blog. Claro que não acaba por aqui.

Me deixa, oh louca! (trechos)

Casal de bipolares, por volta dos 40 anos. Ela viva, alegre, cabelos pintados de laranja, roupas extravagantes. Ele sério, cansado, vestido de blusa social e gravata desarrumada como quem chega do trabalho. Uma sala de estar em que os dois humores se misturam em dissonância, cinza, azul marinho, verde cana, laranja... móveis com desenhos retos e outros arredondados. Atmosfera de conflito.

Cena : O amor de Lúcio.

Lúcio: Hoje pensei em você quando dirigia meu cavalo alado entre os carros em um engarrafamento às 6 da tarde e não importavam as cores do sinal, não importava a vida ou a morte, a irrealidade do tempo, ele não é real, o tempo que é relativo e corre em todos os lugares, nos lugares dentro de cada um de nós, no tempo que damos ao tempo... Já não sei em que tempo eu vivo se não à espera de te ver. Eu corro para chegar em casa e ver você balançar os cabelos cor tangerina, tão viva e alegre, de ver você girar, cantar, dançar e dar movimento ao mundo, ele só gira quando estou com você, o mundo é inerte, ele só tem movimento quando estou contigo. Você e sua doce loucura, você me coloca vivo. Você me gera, me nutri, você enche o vazio que sinto. Você é a melhor sinfonia, a sua voz... Você é o som em gesto, você me toca, eu um instrumento desafinado me torno harmonioso. Quando estamos calados só nos olhando, é o momento em que o andamento se torna mais eloqüente, meu coração ouve os gritos do teu olhar dizendo te amo. *

[...]

Cena: Lola deprimida

Lola: Você não se cansa de me amar não? Você não cansa de falar, de viver comigo não?

Lúcio: (com cara de quem não entende Lola) hammm

Lola: Eu canso, estou cansada disso tudo.

Lúcio: Você quer me deixar Lola, quer separação?

Lola: Não, você não entendeu, eu cansei de mim. Queria falar para você algo alegre. Entende? Algo que fosse igual ao sol[... ]
[...]
Lola pensativa, mexendo nos cabelos

Lúcio: Lola você está ai?

Lola: Sim, estou. Não estou. Acho que saí para passear.

[...]

Lola: Levantar, o que é que em tu levanta? Ao sofá.

Lúcio (cabisbaixo e falando para si): Ergo edifícios... é difícil... difícil é viver contigo.

Lola: Disse algo?

Lúcio: Não pensei alto. Estou apenas cansado.

[...]
Cena: Desabafo de Lúcio

Lúcio: (fumando um cigarro) Estou cada vez me sentindo mais vazio, incapaz. O sonho e a certeza que eu tinha anos atrás que eu seria ótimo profissional em qualquer área que eu escolhesse, porque confiava na minha capacidade, acabou, A C A B O U!(respira fundo). O sonho acabou Lola.

Lola: Não, meu amor,o sonho não acabou, querido você é maravilhoso. Constrói edifícios que tocam o céu, não o arranham, o acariciam. Você toca o céu. (pausa)Você...o que? O sonho acabou? (pausa longa, caminha e pensa) Tudo pra você é Beatles, você e cachorra da Michelle. O nosso sonho acabou?

Lúcio: Lola, sem dramas. Michelle era um caso de mania. Meus sonhos que acabam são outros.

Lola: Mania? Fala sério, você tinha mania dela! Não usa a euforia como desculpa.

Lúcio: Quer que eu responda? (pausa breve) Eu tinha mania de peitão.
[...]
(2007)

*Uma parte de “O amor de Lúcio” me foi dada por um amigo.

Valsa silenciosa e úmida, naturalmente sentida.

Era um momento único, jamais se repetiria nem de forma semelhante, era uma valsa silenciosa que terminou numa cavalgada frenética do meu coração a pulsar além do peito.

Entrei num quarto escuro, ahh nada eu via, caminhei com frio em alma e um sopro quente chegava em mim, percorria a nuca, senti as costas quentes de repente este nada tão úmido me enlaçava, tão terno, tão doce, tão... profundamente me abraçava, eu me senti fraquejar as pernas, mas ele o vento me segurava firmemente.

Valsamos, ele me guiava segurando em minha cintura, depois ventre e seios...fazia silêncio, mas minha respiração que o inspirava e fazia dele meu, que me preenchia dele para além dos pulmões, alma; servia como um poema musicado, eu ouvia sussurros através do toque calmo e viril. Ahhh... ele falava é para você Elise, para você amada Elise que me transformo em natureza e lhe toco a pele.

Eu me sentia derramar ao chão, me sentia inundada, ele se liquefez e eu estava num grande rio de louca correnteza, de inebriante profundidade, um rio de desejos intensos da alma deste amante que me tomava, o céu era o seu olhar. Ele se agitava, ondas se formavam sob e sobre meu corpo, eu estava em cima, em baixo em todos os lados, eu estava em mil pedaços e unida; desorientada e possuída.

Ele era veloz, como uma corrida, rápido me percorria, e de forma gloriosa ele era um raio que me iluminava, eu gozei o sol, eu geri o mundo, ele era o universo que me enamorava, eu a melodia que o embalava; da lembrança me fiz poesia.

(2008)

sábado, 24 de outubro de 2009

6,8

Uma sala ampla com todas as paredes, teto, chão pintados de vermelho vibrante, sem janelas nem portas. Um refletor PAR no centro do teto com filtro verde. Substituindo uma das paredes, se tem uma escada tão larga quanto as outras paredes, é vermelha e tão longa que o fim não se vê, sobe tão alto que toca o infinito. Uma mulher de 35 anos, muito alta, muito magra em que a pele somente cobre os ossos, muito pálida, cabelos longos pretos despenteados, lábios finos e frios pintados de vermelho, numa expressão de fúria misturada a cansaço, olhos vendados. Veste um vestido vermelho de alças de tecido semi-transparente, ela está descalça. Ela sua e treme. Se encontra bem abaixo do refletor.


O único objeto presente neste cubo é uma taça de espumante e está aos pés da mulher.

No fim dessa escada, imerso na escuridão, está um homem e por estar na escuridão não dá para saber como ele é, pode ser qualquer homem adulto, a única coisa que importa é a voz grave, mas que suavemente lança para os ouvidos da mulher a seguinte frase:

Ele: E então como foi? Legal? Que bom! Como eu gosto de te ver assim, assim feliz.

Ela: (firme) Me perdoa, a vida é doce!

Ela desvenda os olhos, bebe o espumante, corre em círculos, dança energicamente, grita e cai. Ele aplaude e desce da escada, um homem com seus 40 anos, alto, forte, cabelos pretos curtos, nu. Ele assume o lugar dela, venda os olhos, quebra a taça, corre em círculos, dança energicamente, ri alto e cai.

***

Músicas: Universo paralelo e a Vida é doce, Lobão.
Uma “inspiração”: Pina Bausch em Le Sacre Du Printemps.
http://www.youtube.com/watch?v=KXVuVQuMvgA

Refazendo um exercício feito na aula de Dramaturgia.
Partindo do espaço e de objetos para se chegar a indivíduos e depois a ação.

domingo, 11 de outubro de 2009

O segredo desta vida

Ela Manhã: O sol está se pondo. Ai o mar...azul, lindo, poético! A brisa, calma, a areia, convidativa... Mas não quero ficar parada contemplando. Vamos andar um pouco contra o vento? Deixá-lo bater no rosto.


Ele Noite: Pensei em outra coisa.


Ela Manhã: Me fale.

Ele noite: (Não responde, está olhando fixamente para o mar.)

Ela Manhã: A vida, sentido tem?

Ele Noite: (Permanece calado apenas balança a cabeça negativamente)


Ela Manhã: Eu a sinto, louca, entrando em mim com ferocidade, violentando-me. E eu que queria paz, ficar quietinha, na minha, grito, choro e depois, paradoxalmente eu gozo de prazer, eu relaxo e agradeço por estar viva e a cada dia eu gero vida.


Ele Noite: Humm... Isso daí é paixão né?


Ela Manhã: Você disse paixão? Desespero, conflito! Eu gestante de vida, eu parturiente de vida, eu amamentando a vida, eu nauseada de vida... (pausa) Eu um dia abortarei vida, e morrerei de vida. Ah, cansei de vida. (risadas nervosas) E aí como é a vida para você?


Ele Noite: Já ouviu a música do Raul seixas?


Ela Manhã: Qual?


Ele Noite: (Começa cantar a música “Canto para minha morte” de Raul Seixas)
Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida

Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...


Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...


Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

sábado, 15 de agosto de 2009

O Caos desejando Eros

Ela era o Caos, se repartia e construía,
Mas do ventre desejoso nasceu Eros,
Do gozo doce, a amargura
Das lágrimas salgadas, o perdão
Das meias verdades, frases de amor
Do amor nasce a morte do ser
O ser era belo e solitário
Todos que nasceram, estes outros, eram feitos de sonhos, de plumas, de nuvens,
cheiravam a flores.
Da morte do ser nasce o coletivo.
Coletivo denso, profano, vaidoso, carrasco, e com uma ternura paradoxal a sua existência, mas coerente com sua aparência.
A existência do coletivo é a inexistência do individuo.
E tu, minha amiga, sonha com o ventre, com o Caos amando Eros, com a divisão e a união, com o carrasco, com a ternura paradoxal, com a existência gerada pela inexistência...
Oh, minha amiga, bebe as lágrimas, derrama o gozo e vá em paz.
Mas se queres o contrário do que deve ser, do que é correto e bom, então bebe o gozo e derrama as lágrimas salgadas e vai ser mar.

**
Refazendo 2006

Sertão rosado

Eu sou a rosa má.
Vermelho barro bárbaro,
Da lama com meu sangue jorrado ao seco chão.
A rosa com mais espinhos que pétalas.
Sem aspecto de rosa, mas de-lírios.
Sem cheiro de rosa, mas de monóxido de carbono.
Fincada na terra semi-árida do ser-tão
Tão- tudo é um pouco do nada! Ser.
Tão- nada significando tudo!
Ser, não sendo.
Nem tudo nem nada, ser e tão nada e tudo e novamente Rosa.
Seca, bárbara, carbono.
Sou o vermelho acinzentado.
Uma sobrevivente.
Sôfrega sobrevivente.
A rosa sem suas pétalas
Pode ser rosa?
Ainda sim sou rosa.
A espinhosa.
A rosa cacto!

***

Era em 2006!
Hoje erva daninha.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Fotopsia


X: Me deixe ir.
Y: Não tem para onde.
X: Mas eu quero ir.
Y: A lugar nenhum?
X: Qualquer lugar.
Y: Não existe qualquer lugar, apenas lugares nominados, fechados.
X: Quais os nomes?
Y: Eu, nós, eles, outros.
X: Eu ? Um lugar? Eu quero ir.
Y: Não pode sair de si.
X: Sempre saio e passeio por ti. Mas agora quero ir.
Y: Me visitas mal. Voa então.
X: Asas quebradas.
Y: Um dia cicatrizam.
X: Eu quero sair e apenas estar...vagar...mudar. Não quero ser.
Y: Nós éramos uma casa tão bonita.
X: Paredes mofadas, rachaduras, teto com goteiras. Sempre sonhei com estrelas.
Y: Não são palpáveis.
X: E os outros são?
Y: Prisões, grades, carcereiro, detentos.
X: Sedentos de liberdade. Da liberdade alheia. Você é um outro.
Y: Você também.
X: Então voa.
Y: Não quero.
X: Me dê as chaves.
Y: Conquiste-as.
X: Conquistar a minha própria liberdade?
Y: É o que te falta. Desejas tanto, que ainda está aqui.
X: Como?
Y: Eu sou as chaves.
X: Não. A luz é minha.
Y: Também a sombra.
X: Não tenho medo de minhas trevas.
Y: Se não tem, porque ainda está aqui? Porque não encontrou seu nome?
X: Para não encontrar a prisão. Me deixa ir.
Y: Enquanto pedes, eu ainda sou a chave.
X: A luz é minha.
Y: Já disse, a sombra também. Mas a luz que tanto de orgulhas de ter é apenas a chama de uma fogueira que eu ascendi.
X: A minha sombra então é culpa tua.
Y: Culpa? Nem responsabilidade. Dei-te apenas o que você queria, mas cega não sabia no que implicava o teu querer.
X: No que implicava?
Y: Não sabe?
X: Em sombras?
Y: Também.
X: Prisões?
Y: Sou o outro. E você também é, o meu outro e ainda o seu Eu.
X: Só quero estar e de passagem.
Y: Para onde? Para outros?
X: O que não tenha nome.
Y: Nem na mudez.
X: Quero ir, você tem as chaves e não vou conquistá-las, eu as usurpo.
Y:Como?
X: Você partindo. Não existindo você, não existiremos mais nós.
Y: Mas você existe.
X: Mas não serei ninguém
Y: Será eu.
X: E sombras. Apagarei a fogueira.
Y: E a luz?
X: Prefiro nada ver.
Y: Acha que é possível?
X: Tenho as estrelas em mente, prova que um dia estive fora...
Y: E era cega.
X. Então é possível!
Y: Não, não é. Quem chega à claridade, não volta a escuridão sem ficar resquícios na memória dos feixes de luz. E há tanta luz nesta casa que não conseguirá mais ver as estrelas mesmo que esteja cega novamente.
X: Sua claridade tirou-me a mágica.
Y: Você a queria, eu dei, nem culpa nem responsabilidade se eras livre para desejar.
X: Não desejei as conseqüências. Sombras.
Y: Passou a cegueira, mas ainda é míope.
X: Desejo então que o meu grau de miopia aumente para que nem ao menos eu possa ver-te.
Y: Já não vê bem o que nunca chegou a ver realmente. Percebe apenas com um tato que distorce o outro que sou. Eu também sou eu.
X: És um lugar, fechado, está preso. Por isso me detém.
Y: Não, eu curo tuas asas para que você possa voar mais alto.
X: Num céu sem estrelas?
Y: Não, a luz do sol.
X: Preparas um Ícaro?
Y: Depende de você. Qual o tamanho do teu temor e do teu desejo pela luz?
X: Casa mofada e sombras são minhas preferências.
Y: Triste, apagarei a fogueira e não estarás livre, nem saberás voar e então, sonhe com estrelas, isso se puder.
X: Fechei os olhos e só vi claridade e sombras, sombras cada vez maiores.
Y: Que elas te dominem então. Voarei, posso e agora quero.
X: E nós e eu outro?
Y: Prefiro agora ser apenas eu, um nome de sombras menores que a luz, sem medo.
X: Preparas para voar, assim, e eu?
Y: É o outro que não quero. Irei ao sol.
X: Adeus Ícaro.
Y: Adeus Sombra.

sábado, 8 de agosto de 2009

Maio branco

Eu sou um quarto todo branco, com janelas de cortinas brancas que balançam com o vento que passa, parece que bailam e nesta valsa silenciosa, sei que é dia.
No meu cubo branco, há uma grande cama macia e branca, com uma colcha branca e do lado da cama uma mesinha também branca, em cima dela uma jarra de vidro cheia de água e um copo de vidro. No meio deste quarto que sou eu, uma listra vertical preta. Eu estou divida e ao mesmo tempo unificada pelo foco que mantenho em mim mesma.
No teto todo branco, várias maçãs vermelhas vibrantes e suculentas penduradas.
Eu deitada em mim mesma, olho-as, estou olhando-me e nada me apetece. Apenas a água e esta sim, eu bebo com volúpia, mas olho incansavelmente para as maçãs e rio. Chamam-me e eu não as quero, mas olharei sem parar enquanto forem vibrantes e suculentas. Um dia apodrecerão em meu colo, caídas de tão maduras e eu jogarei no lixo e continuarei a beber a água tão fresca e pura.
Eclipse, seis da manhã e se fez noite, meu quarto-eu já não é, não somos os mesmos, não vejo as maçãs, nem consigo ver onde está a jarra de água. Fecho os olhos e vejo estrelas, Órion mordido por um terrível escorpião. De nada vale o cinturão, oh querido.
Volta-se o dia e as maçãs podres estão na cama, estão em mim e por azar uma maçã caiu em minha jarra. Sirvo-me assim mesmo de um copo desta nova água. Sinto um gosto estranho e gargalho, tudo envenenado.

***
Mais um texto feito (inspirado, re-significando tudo) a partir de músicas. Misturei Rammstein + Caetano Veloso + Wally Salomão! Ui!

Confissões numa madrugada de maio

Choro, mas também posso rir.
Eu pensei em escrever sobre o vermelho do sangue no branco da espuma de sabão. Na mecha de cabelo que cortei com a lamina e que gritei por socorro em minha mente: Não, não, um leão sem juba é demais a mutilação.
Só os pulsos, num sussurro, em lágrima que percorria dos olhos para dentro até a alma molhada, eu falava baixinho: Não, só os pulsos, só os pulsos, querida.
Mas a esponja era tão macia, o corpo tão cheio de curvas e tão delicioso de contornar. Ah o que antes era culpa se tornara luxuria, e o que era então esponja cheia de espuma de sabão de morango era agora mão em carne quente.
Febre, desejo, loucura! Loucura! Só podia ser isso.
Glúteos, cintura, seios, macios, tenros, quentes. E a espuma fazendo tudo deslizar, porque não experimentar a parte que seria pudenta, mas não é? Retirar o sabão então, a água tão fria, gelada! Ah não assusta, refresca. Sim, agora estou em mim.
E o que antes era água com sabão agora era...
E o que era dor e sangue já não era mais nada.
Alguém me chama... Sinto os cortes, doem, mas tudo ainda está quente. Desligam o som e desperto.
As músicas que tocavam? Apenas duas, Chão de estrelas e Com medo, com Pedro, eu ouvia repetidas vezes, desliguei todas as luzes, fiquei nua no meio da sala, subi em cadeiras e sofá, dancei e dancei e então fui ao quarto. Peguei no meu esconderijo a lamina, estava tudo escuro, mas eu sei onde está cada coisa, mesmo as escondidas e fui ao banheiro. No chuveiro a água caia e pensei em escrever sobre o vermelho do sangue no branco da espuma de sabão.