Aurora: Inveja de uma mulher traída? Que estava de cara com a amante de seu marido e educadamente conversava com toda inocência?
Zilá: Sim, inveja. E quem sabe se aquela educação dela não era uma farsa e que por dentro ela se mordia toda, assim como eu? Que entre os sorrisos não escondia uma fúria?
Aurora: Mas como alguém pode disfarçar tanto?
Zilá: Podemos mascarar muito bem nossos sentimentos, mas é quando estamos sós que não conseguimos mais mentir, o pior é ficar desnuda para mim. É saber tudo o que sinto. Foi olhando para ela que eu soube o meu lugar, mas não vou ficar nele. Ela deve ser gloriosa e irei ultrapassá-la. Parece que ao conhecer a mulher dele, ele passou a ser ainda mais interessante.
Aurora: Não a superestime. Não ache que ela está acima de ti. Porque é claro que ela deve ter mil defeitos, algo nela o desagrada profundamente, se não porque ele teria uma amante?
Zilá: Porque ele é safado simples assim. Se algo nela o desagradasse profundamente ele se separaria. E ele fica comigo para ter outros prazeres.
Aurora: Não é por gostar de ti? Do jeito dele, mas gostar de ti realmente?
Zilá: Esta com pena de mim? É por isso que tenta me ludibriar com esse argumento? Se ele gostasse de mim se separava, ele é safado, mas gosto dele, estou triste por saber disso.
Aurora: Sim alguns homens são apenas cretinos, e nada além.
Zilá: Também não vamos resumi-lo a isso. Talvez essa possibilidade de ter alguém que ele possa possuir sem receios, sem botar ele na parede, é que torne uma amante como eu interessante. Talvez a minha juventude, talvez a minha dependência, a mulher dele parece-me tão resolvida em si mesma, mesmo quando quis passar que não era, ela esbanjava uma independência, isso eu sentia. Acho que isso assusta, ela pode ir embora e ser feliz. Ele sabe que eu não irei embora, que mesmo com os passos em falso que ele dá continuo com ele. Que minha dependência não é só financeira, que mesmo passando num concurso como é meu desejo, ele sabe que desejo em igual intensidade continuar com ele. E não sei se sinto amor, é outra coisa. Mas sinto que ele também precisa de mim, é como se ele precisasse de alguém para cuidar, não exatamente cuidar...(pausa) mas se sentir superior. Só pode ser isso. Não se pode se relacionar entre iguais.
Aurora: Entendo perfeitamente.
Zilá: Entende?
Aurora: Necessidade de diferenças. De completar, talvez isso seja amor, talvez não.
Zilá: Eu não entendo. Mesmo com tudo tão claro fico confusa.
Aurora: Você acha que estou com um homem que não tem o mesmo nível de instrução que eu, que sempre precisa de meu apoio para seguir a vida, que não gosta das mesmas músicas, nem dos mesmos filmes, que precisa de orientações, de meus cuidados porque simplesmente transa bem? Talvez instinto maternal, talvez superioridade, talvez...
Zilá: Talvez amor? Não pode ser amor?
Aurora: Pode, mas pode ser também carência, medo da solidão.
Zilá: Como assim?
Aurora: Alguém que só terminou o segundo grau porque eu insisti, alguém que eu tenha que regular a bebida, que eu tenha que incentivar a continuar a procurar emprego, não é a pessoa que sonhei para mim, acho que tenho medo de ficar só.
Zilá: Não acredito que está falando tudo isso.
Aurora: Só você pode dizer com verdade o que sente?
Zilá: E se não for verdade o que eu digo e se eu estiver mentindo?
Aurora: Então mente até quando está só. Porque o que diz para mim é o que você diz para você mesma. E já não importa verdade alguma, nem a realidade quando se trata de sentimentos. Não sentimos com a razão, não vivemos apenas com os sentimentos guardados ou expostos, vivemos com eles, vivemos sentindo (pausa) mentindo e dissimulando.